Planetóide X

A extinção dos consoles poderia ser algo bom? (Parte 2)

quinta-feira, junho 25, 2009 José Guilherme Wasner Machado 4 Comentários Categoria: , ,

(Antes de ler este artigo, por favor veja a primeira parte)

A primeira empresa que se deu conta da futilidade dessa corrida foi a Nintendo. Assim, ela abandonou a competição "state of the art", preferindo investir na diferenciação do seu produto. Seu console mais recente, o Wii, é tecnologicamente obsoleto. Ele é apenas uma versão aprimorada do seu predecessor, o Gamecube, mas com um sistema exótico de controle que caiu no gosto e na imaginação do público. Assim, a Nintendo pôde lançar o seu console a um preço bem inferior ao dos aparelhos concorrentes, ao mesmo tempo em que conseguia evitar prejuízos na venda, pois não eram necessários subsídios para cobrir os custos de fabricação. De fato, ela conseguiu inclusive enormes lucros na venda do console, mesmo nos meses iniciais de lançamento. Mais importante, ele escolheu não bater de frente com a concorrência, preferindo focar a maior parte dos seus esforços na conquista do usuário "leigo". Ou seja, aquele que normalmente não se interessa por jogos eletrônicos, e não tem tempo ou paciência para se dedicar a títulos mais complexos e de jogabilidade profunda. Se essa iniciativa foi boa ou ruim para indústria, para o mercado e para os gamers tradicionais, há controvérsias. Principalmente a longo prazo. Mas o precendente permanece: ela saiu fora do modelo tradicional, e se deu muito bem com isso.


Em vista do sucesso espantoso do Wii, imagino que o débâcle dos consoles não ocorrerá imediatamente. Mas o modelo tradicional certamente será afetado pela experiência da Nintendo. Acho que assim como foi com o Wii, os novos consoles serão aparelhos baratos, vendidos com lucro já no lançamento, ou pelo menos com pouquíssimo prejuízo. Porém, diferente do Wii, não serão consoles tão radicalmente obsoletos, para não alienar o público tradicional. Especialmente os chamados "hardcore gamers", que são os que adquirem jogos com maior frequência e em maior número.

Assim, dentro das possibilidades agora mais estreitas, os novos consoles terão tecnologia suficiente para (tentar) cativar um jogador mais exigente, mas, definitivamente, não serão mais "State of the art / Next Gen", como se costuma definir o termo. Provavelmente esse nicho ficará restrito aos PCs High-End, de custo mais elevado. Para compensar essa perda do fator "força bruta", e ainda conquistar os consumidores casuais, os novos aparelhos deverão possuir recursos ou gadgets que os tornem atraentes, como foi o caso dos "wiimotes" para o console da Nintendo. A detecção/captura mais sofisticada de movimentos e imagens 3D são boas apostas (essa última depende da popularização de monitores e TVs de 120Hz).

Para além de quinze anos no futuro, já não vejo sentido na existência de consoles convencionais, muito menos na continuidade do seu modelo de negócios. E como gamer, eu fico feliz. Esse negócio de "games = consoles" é algo que só existe na cabeça dos fanáticos, que torcem para suas marcas como quem torce para um time de futebol. No que me concerne, penso que os consoles são plataformas limitantes em todos os sentidos. Quando eles se forem de vez, avançaremos bastante no quesito "liberdade". Aliás, a mesma liberdade que os próprios consoles nos trouxeram no passado.

Antes do advento e evolução dos consoles, tínhamos que ir a fliperamas (ou "arcades", como são mais conhecidos hoje em dia), quando desejássemos jogar. Lá, gastávamos rios e rios de dinheiro, sempre para jogar por um tempo muito limitado. Se acabasse o dinheiro, acabava a jogatina - e não tinha choro. E as mesadas, como bem se sabe, costumam (ou costumavam) ser magras. Quando finalmente consegui comprar meu primeiro videogame, fiquei extasiado com a liberdade de poder jogar quando quisesse, onde quisesse, e pelo tempo que desejasse. Meu personagem fez um movimento errado, caiu no abismo e eu não tinha mais vidas? Sem problema, era só eu começar uma nova partida. Por quantas vezes eu quisesse. Inacreditável! Impossível descrever a sensação de euforia e liberdade.

Qual o resultado dessa revolução tecnológica? Os fliperamas praticamente desapareceram, exceto uns poucos que investiram em produtos diferenciados e nichos. Ainda que vários Arcades continuem existindo, deixaram de ter o enorme peso que tinham nos rumos da indústria. Eu não deixo de ter saudades dessa época e das alegrias que vivenciei com meus amigos, em fliperamas escuros e poeirentos - mas não derramo lágrimas pelos arcades , pois hoje a realidade é muito melhor para nós, gamers. E também não derramarei lágrimas pelos consoles.

Estão, aos poucos, sendo criadas condições para viabilizar o próximo passo, que muito nos beneficiará - a dos jogos serem oferecidos como um serviço e/ou um produto independente, sem necessidade de um hardware proprietário como um console, podendo ser desfrutados em uma plataforma genérica e aberta como um PC ("PC" aqui num sentido mais amplo) ou outro dispositivo padronizado e aberto. Não dependeríamos da compra de um console, da disponibilidade de um título para ele, das suas limitações técnicas, do seu ciclo de vida, da sua popularidade, da sua importação (no caso do Brasil, por exemplo), das suas travas regionais, da sua mídia, do que seja. Ainda bem.

Há muito tempo atrás, foram os computadores que passaram por um processo semelhante - tínhamos Commodores, Radio Shacks, Osbornes, Ataris e mais uma infinidade de modelos, todos incompatíveis entre si. Já pensou se ainda fosse assim? Seria um atraso de vida. E exceto por um ou outro fanboy saudosista, não vejo ninguém lamentando porque essa diversidade de plataformas desapareceu.

A ascensão e domínio da plataforma aberta do PC (com a importante ressalva da Apple) permitiu aos consumidores e desenvolvedoras se concentrarem no que era realmente importante: o SOFTWARE. E nem por isso a plataforma parou de evoluir ou de recolher os benefícios da livre concorrência. Pelo contrário: o PC hoje é uma das plataformas mais criativas, avançadas e revolucionárias, e não deixa de continuar progredindo um só momento. Nada mais natural - e desejável - que um processo semelhante venha a ocorrer com os games.

A partir daí, as possibilidades são inúmeras. Plataformas de software se tornarão viáveis, independente da base de hardware: bibliotecas, padrões, protocolos, programas clientes, máquinas virtuais, drivers, etc, que permitirão portabilidade entre diferentes sistemas operacionais e dispositivos de hardware. Como e quando isso vai acontecer, não faço idéia, pois ainda estamos engatinhando. Mas nunca chegaremos lá se o mercado permanecer nesse modelo de negócios atrasado, irracional e limitador, que pouco ou nada beneficia os principais atores envolvidos: desenvolvedores e jogadores. Talvez seja necessário um novo crash dos videogames para matar os dinossauros e repensar a maneira como jogamos e comercializamos os nossos jogos. Ou talvez baste apenas ter bom senso.

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4 comentários

  1. Amigão,estive dando uma olhada nesse esquema de jogar usando "as nuves" descobri que o maior problema é a velocidade e estabilidade da net,lee uma materia sobre Como as redes Wireless DIDO vão mudar tudo,
    Steve Perlman, criador da OnLive, agora promete revolucionar mais uma vez, com uma rede de comunicações diferente de tudo que conhecemos.
    Se isso der certo o que é bem provavel todos teremos uma velocidade alticima coisa por volta de 100Mega e com preço acessival para a maioria,isso claro se as operadoras pensarem nos clientes e não somente nos lucros.
    bom meu amigo conhece essa tecnologia dido?

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  2. Acho que já postei algo sobre ela num dos meus twitters. Mas lembre-se que o mais importante é a latência total, e não apenas da rede local ou de um dos segmentos pelo qual os dados eventualmente irão passar...

    Abs!

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  3. Brother dei uma pesquisada sobre latencia de rede e verifiquei que a quantidade de transferencia claro é importante tbem pois pode carregar mais dados porem exatamente sobre o online a latencia é muito mais importante pois é a velocidade que os dado levam para ir da minha casa ao servidor e vice-versa certo.sabendo disso como poderiam entao os criadores do online resolver essa equação apenas disponibilizando servidores mais proximos,para os Brasileiros somente resta essa remota opção?

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  4. Servidores mais próximos é talvez a única opção viável a médio prazo, mas ainda assim duvidosa, do ponto de vista econômico. Todo o "ecossistema" tem MUITO o que evoluir ainda.

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