Planetóide X

The Witcher, um ótimo RPG

quinta-feira, junho 25, 2009 José Guilherme Wasner Machado 4 Comentários Categoria: , , ,

Hoje eu gostaria de aproveitar esse espaço para comentar um jogo que aprecio bastante: "The Witcher". É um título que tem ação suficiente para motivar os que detestam jogos "parados", mas com uma história complexa e intrigante que certamente conquistará o interesse dos fãs de CRPGs mais convencionais (meu caso). Tive bons momentos com esse jogo que, infelizmente, é pouco conhecido por essas bandas. Não pretendo fazer um review formal (até porque existem inúmeras análises por aí, bem mais completas), mas apenas delinear os aspectos mais característicos do game - e, quem sabe, motivar mais pessoas a darem uma chance a essa produção singular.


"The Witcher" é o jogo de estréia da novata CD Projekt, uma produtora de games polonesa, mais conhecida hoje pelo portal Good Old Games. Se a origem polonesa talvez lhe traga a impressão de algo inferior ou de menor sofisticação em relação aos seus congêneres americanos, saiba que está redondamente enganado. "The Witcher" é um jogaço, um título profundo, adulto e moralmente complexo, que merecidamente recebeu o título de melhor RPG de 2007 em várias publicações, entre elas a PC Gamer americana. Também foi um sucesso de público, tendo vendido mais de um milhão de cópias no período de um ano. Tudo isso é consequência do talento e dedicação que foram investidos nessa ótima produção.



O game é baseado em uma série de livros do autor polonês Andrzej Sapkowski. Apesar do universo desses livros ser o que comumente chamamos de "High Fantasy", o autor adota um tom muito mais adulto e sombrio do que em outras obras do gênero, abordando temas como terrorismo, genocídio, racismo, prostituição e estupro. Não é o mais indicado, portanto, para seu filho que adora Harry Potter e Dungeons & Dragons. Outro traço marcante da obra de Sapkowski, e que o difere consideravelmente de outros autores de fantasia, é a ambiguidade moral dos seus personagens e das situações por eles vividas. Nada é preto no branco, nada é inequivocamente "bom" ou "ruim", como poderemos constatar à medida que prosseguimos no enredo do jogo.

As decisões que tomar terão sérias consequências no desenrolar da história

A história acompanha as ações de Geralt de Rivia, um dos "witchers" que dão nome ao jogo. Witchers são seres que atravessaram um processo de mutação transgênica, e que os transformaram em exímios lutadores. Eles normalmente ganham a vida fazendo trabalhos mercenários ou caçando feras e monstros - por um preço, claro. Nada de heroísmo desinteressado por aqui. O jogo começa na fortaleza semi-destruída de Kaer Morhen, refúgio e base dos witchers, com Geralt acordando após um longo período de coma. Ele nada se lembra de sua vida pregressa, e por isso perdeu a maior parte de suas habilidades originais. Esse é um ponto de partida inteligente (embora não exatamente inédito), pois transforma Geralt em uma "tela em branco", que poderá ser desenvolvida, ao longo do jogo, de acordo com as preferências do jogador. Voltando à história, Kaer Morhen é atacada, e após uma luta feroz, os atacantes partem, mas não sem antes roubarem o segredo das fórmulas que provocam as mutações dos witchers. Qual o objetivo disso, só descobriremos mais tarde. O jogo acompanha Geralt na sua caça aos agressores e na busca por respostas. Mas esse é apenas um dos muitos problemas que ele terá que encarar.

Cut scenes fazem a ligação entre os diversos segmentos do jogo


Definitivamente, o caminho não será agradável, nem fácil - o reino de Temeria, que é onde se passa a história, está atravessando um período de pós-guerra e de graves dificuldades econômicas. Há uma peste atacando a população. Raças não-humanas (os tradicionais elfos e anões) são oprimidas e consideradas de segunda classe (pense em algo como a situação dos palestinos em Israel), e por fim resolvem se rebelar, iniciando um levante armado. Mas o movimento não hesita em apelar para o terrorismo e para a morte de inocentes. Geralt se verá no meio desse conflito crescente - e terá que tomar partido em algum momento. Só que a decisão não será óbvia para o jogador. As duas facções possuem bons e maus motivos para suas ações. Algo que parece "certo" em um primeiro momento, poderá revelar-se um mal ainda maior no futuro. E haverá sérias consequências para cada decisão tomada. Aliás, isso é algo que aumenta bastante o fator replay, já que caminhos diversos poderão ser tomados em diferentes partidas. Aqui vale uma ressalva, para os que animarem a experimentar o jogo: a história começa a tornar-se realmente interessante a partir do segundo capítulo. Então seja perseverante.

Ainda que o maior destaque seja mesmo a história e os personagens, acho que vale comentar o sistema de combate, que é bem inovador. O jogador deve encadear, de maneira precisa e cadenciada, uma série de golpes sequenciais com sua arma. Se ele fizer a coisa direito, Geralt acabará por concluir a sequência com um combo mais poderoso, deixando pouco espaço para o adversário contra-atacar. Parece complicado, mas é bem simples e natural - só necessita de um pouco de prática. Se eu consegui me dar bem, qualquer um consegue.


Como trata-se de um RPG, é claro que a efetividade e alcance dos golpes não dependem apenas da destreza manual do jogador, mas também do nível de cada uma das habilidades do personagem. Essas habilidades são desenvolvidas à medida em que ele sobe de nível ("levelling"), através da distribuição criteriosa dos créditos obtidos. O jogo oferece bastante espaço para especialização, já que existem diversos tipos de habilidade de luta, entre outras proficiências. Adicionalmente, os witchers contam com uma série de poderes extras, que podem ser desenvolvidos em maior ou menor grau, de acordo com as inclinações do jogador. Os mais úteis, na minha opinião, são os poderes usados para incendiar adversários e para dar o "empurrão telecinético", que serve para destruir obstáculos e atordoar inimigos, tornando-os presas fáceis para um golpe final.

A tela de habilidades/levelling do personagem

Para fechar o arsenal bélico, os witchers podem ainda aprender receitas de poções (que aumentam seu poder de dano, de defesa, etc), óleos (que dão propriedades especiais para suas armas) e bombas. Após aprender uma determinada receita, é necessário conseguir os ingredientes para o seu preparo. Esses podem ser adquiridos com vendedores especializados ou, se o witcher possuir conhecimento para tal (obtido através da leitura de livros), extraídos a partir de plantas e criaturas derrotadas. Essas fórmulas, todavia, são mais úteis em níveis superiores de dificuldade. No modo de jogo normal, elas são bem dispensáveis, o que diminui consideravelmente o fator tático das lutas. Assim, se desejar algo mais desafiador, não hesite em iniciar a partida em um nível de dificuldade mais elevado.

Geralt recebendo a recompensa por um trabalho bem-feito

"The Witcher" foi construído usando uma versão aperfeiçoada da engine Aurora, o motor gráfico de Neverwinter Nights. Para felicidade e alívio dos jogadores, foi disponibilizado um modo tradicional de câmera com "visão por trás dos ombros" do personagem. Recomendo fortemente essa opção. Os visuais, por sua vez, são excelentes. É realmente incrível como a ótima direção de arte transmite a atmosfera sombria e decadente de Temeria, com suas cidades infestadas de mendigos e prostitutas. As dublagens também são muito boas, assim como a belíssima trilha sonora.

Um (raro) momento de tranquilidade

Mas, como era de se esperar, o jogo também tem seus defeitos: muitos bugs, em alguns casos com crash para o desktop; Vários modelos de personagens repetidos; No nível normal, o combate pode se tornar muito fácil e, por consequência, pouco profundo; Os loads são extremamente lentos; As missões te obrigam a correr de lá para cá ao longo do cenário, além do limite do bom senso; Há alguns glitches visuais, que podem ou não ocorrer na sua máquina. A maior parte desses problemas foi resolvida com o lançamento da versão "Enhanced", que ocorreu no ano passado. Além de corrigir bugs, acelerar loadings, aumentar a qualidade e variedade dos modelos dos personagens, melhorar os problemas de tradução e dublagem para o inglês (lembre-se que o original é em polonês), essa versão melhorada ainda trouxe uma nova aventura de Geralt e disponibilizou a trilha sonora para download em MP3, entre outros presentes. O download da versão "Enhanced" é gratuito para os proprietários da versão original. Não inicie o jogo sem ele.

A versão "enhanced" trouxe melhorias para os modelos dos personagens

No exterior, "The Witcher" foi lançado em duas versões - a original e a censurada, essa última voltada para o pudico e envergonhado mercado americano. Na versão censurada, foi eliminada totalmente a nudez, seja nos personagens do jogo, seja nas chamadas "sex-cards" - cartões que Geralt recebe sempre que leva uma garota nova para cama (e elas serão muitas), e que retratam a donzela em alguma posição comprometedora. Também foram eliminados os palavrões. A versão que foi lançada por aqui é a não-censurada. Aliás, lançada por um preço muito atraente - apenas R$60,00, com direito ao manual impresso do jogo. Imperdível!

Uma das poucas "sex cards" que podemos mostrar nesse blog de família

Triss Merigold, um dos interesses românticos do herói

De ruim mesmo em "The Witcher" é que ele tem um fim. Infelizmente, depois de uma duração que varia entre 60 a 80 horas, o final acaba por chegar, por mais que você não queira. Não sei quando um novo jogo da série será lançado. Mas eu certamente serei um dos primeiros da fila para comprar, se o nível de qualidade for mantido. Altamente recomendável a todos os fãs de CRPG, ou aos que simplesmente apreciam uma boa história.

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4 comentários

  1. Com toda essa hype em torno do lançamento do The Witcher 3, finalmente resolvi instalar e começar a jogar o The Witcher que eu tinha comprado a mais de um ano atrás (junto com o The Witcher 2) por uma ninharia numa promoção da steam e nunca tinha sequer instalado, estava lá "mofando" na minha bibilioteca.

    E vou lhe dizer... Já estou no capítulo 2 e está ficando difícil de superar a monotonia.

    Eu gostei muito do sistema de combate e achei bem inovador até. Aliás, o problema para mim tem sido justamente a falta de combates :) Infelizmente eu sempre fui um eterno dependente das quest marks, admito. Se não tiver uma setinha apontando exatamente para onde eu tenho que ir eu acabo ficando igual a uma barata tonta batendo em todos os cantos sem encontrar o caminho "certo". Eu levo um tempo maior que o normal para memorizar o nome de todos os npcs e isso acaba sendo um problema quando as direções são dadas apenas pelos nomes sem indicação gráfica. Junte-se a isso o fato que vc mesmo citou no artigo: "As missões te obrigam a correr de lá para cá ao longo do cenário, além do limite do bom senso."

    Resultado: Lá estou eu, com uma lista grande de quests (principais e segundárias) andando de um lado para outro, falando com vários npcs e notando que alguns diálogos já estão começando a se repetir e... Nada acontece... :( Já começo a ficar com a impressão de que não estou evoluindo na história e isso é muito frustante...

    Esse é o tipo de problema que eu nunca tive em jogos como Mass Effect (1, 2 e 3), Fallout (3 e NV) e Oblivion. São jogos longos mas que em nenhum momento eu tive a impressão de estar empacado no jogo (sem progredir). Em nenhum momento me senti perdido, sem saber o que fazer ou aonde ir.

    Apesar de estar com a tradução em pt-br algumas instruções estão meio vagas e simplesmente não explicam nada.

    Mas sigo tentando pois adorei a ambientação do jogo e ainda existem npcs que ainda não falei.

    Você bem que poderia escrever um artigo para essa saga no estilo aquele "guia de uso para RPGs da Bethesda": http://www.planetoidex.com.br/2014/04/rpgs-da-bethesda-guia-de-uso.html

    Foi um ótimo artigo aquele, que me esclareceu muitas coisas. Me seria muito útil um artigo naqueles moldes para a franquia The witcher nesse momento. :)

    Bom... De qualquer maneira foi um ótimo review esse seu, mesmo sendo de 2009 (como já disse, bons artigos não envelhecem).

    Abçs.

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  2. O jogo melhora BASTANTE ao longo do capítulo 2 e daí em diante, Luiz! Garanto que combates não faltam! Principalmente quando o sol se pôe. Aí os monstros aparecem e os bandidos saem às ruas. Um ponto que vc passou de dia e estava tranquilo pode estar lotado de bandidos ou monstros à noite.

    Vale notar que a hora de dia costuma ser muito importante, inclusive para resolver quests. Se tal pessoa falou que vai se encontrar com vc no início da noite, vc não irá vê-la em outro período do dia. O mesmo vale para monstros. A maioria não aparece enquanto o sol estiver no céu, exceto em alguns cenários específicos, como o pântano do capítulo 2.

    Não me lembrava da falta de marcadores de quests. Tem muito tempo que joguei, mas me lembro de ver quest markers. Será que minha memória está me pregando peças? Bem, se vc estiver com dificuldade de achar os pontos onde ir, recomendo ficar com um walkthrough de lado. Se tiver um tablet ou um smartphone onde possa consultar o walkthrough facilmente, melhor ainda. Não há nenhuma vergonha nisso, nem todo mundo tem tempo de sobra para ficar indo para lá e para cá para achar onde a quest se resolve, ainda mais se o texto não for claro o suficiente.

    Falando nisso, não sei como é a tradução brasileira, mas toda vez que resolvi experimentar alguma, desisti rapidinho. Normalmente são legendas muito ruins e com péssimas traduções. Isso pode estar prejudicando vc também.

    Insista um pouco mais, jogue pelo menos o capítulo 2, ou uma boa parte dele... acho que vc vai gostar bem mais. O capítulo 1 é bem fraco.

    Boa sorte!!

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    1. Valeu pelas dicas José. Realmente eu estava ignorando o fato do jogo ter dia, tarde e noite e já encontrei um npc que não estava encontrando somente mudando o período do dia para a noite.

      Algumas missões do jogo tem as quest marks, outras não tem a opção de colocar a quest mark (talvez pq dependam de algum progresso no jogo). Mas mesmo as missões que tem a quest mark não te avisam (ao menos não na tradução) em qual período do dia vc deve ir falar com o determinado npc, então fica a quest mark mas quando se chega no local não se encontra o npc.

      Também concordo com vc a respeito das traduções dos jogos, essa é bem tosca mesmo. Parece que alguém simplesmente passou um google translator no texto em inglês e pronto. Não tiveram a mínima preocupação com a concordância das frases. Isso sem contar os erros básicos de português.

      O problema de jogar em inglês é que, apesar de saber o inglês básico, sempre acabam aparecendo palavras que não são triviais(mas que são fundamentais para o entendimento completo do texto) no meio dos textos que acabam me forçando a fechar o jogo e consultar a tradução daquela palavra. Mas... Ainda não tinha pensado nessa dica que vc deu de usar um tablet ou um smartfone, vou experimentar.

      Obrigado!!!

      Abçs.

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    2. Um tablet ou smartphone do lado já me salvou várias vezes, Luiz! :)

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