Planetóide X

Sony, PS3, Prejuízos e Evolução

sexta-feira, outubro 30, 2009 José Guilherme Wasner Machado 0 Comentários Categoria:

A Sony fechou o semestre com um prejuízo de quase 200 milhões de euros. Até agora o déficit da gigante japonesa é de mais de 700 milhões de euros no ano fiscal. Uma parcela considerável desse vermelho é culpa da unidade de videogames, cujo prejuízo parece ter atingido o dobro das projeções iniciais feitas pela Sony. Culpa principalmente do Playstation 3, o dispendioso console que custa caro aos cofres da empresa, mas que necessita ser vendido abaixo do preço de custo para se tornar atraente ao consumidor - e, com isso, aumenta o rombo da Sony a cada nova unidade vendida.

Ainda que o PS3 tenha servido, e com sucesso, a um propósito muito diverso da venda de videogames - no caso, garantir a vitória do Bluray sobre o HD-DVD - a Sony deveria repensar seriamente esse modelo tradicional de negócios, onde o console é vendido com prejuízo, na esperança de se obter lucros posteriormente com a venda de jogos próprios e royalties sobre jogos de terceiros. Como já defendi detalhadamente em dois artigos (aqui e aqui), considero que tal modelo beira a irracionalidade, principalmente nos tempos atuais, onde projetar e produzir um console de ponta custa cada vez mais caro. Muito caro. Mesmo no passado, esse modelo de negócios era para lá de arriscado. Não é acidental que várias empresas tenham jogado a toalha: Sega, Atari, 3DO, SNK e tantas outras de saudosa memória. Muitas delas preferiram focar onde parece estar a maior chance de lucros: no software, e não o hardware. Como já pregava o velho Bill Gates há muito tempo atrás.

Seria esse o futuro do mercado de games? Que São Asimov nos proteja...

Ironicamente, a Microsoft foi outra que embarcou nessa canoa furada, justo ela que tinha a faca e o queijo na mão para mudar as regras do jogo e estabelecer um modelo de negócios inédito para o setor, um novo paradigma baseado em uma plataforma de software, rodando sobre uma arquitetura aberta de hardware. Nem as próprias produtoras de games gostam do modelo atual, onde são obrigadas a pagar royalties caríssimos, para lançarem seus títulos nas diversas plataformas fechadas de hardware. Sem falar na complexidade e nos custos que tal modelo multiplataforma trás ao processo de desenvolvimento, e que só tendem a aumentar a cada geração.

Penso que o único tipo de console viável a médio prazo é algo nos moldes do Wii. Um aparelho tecnologicamente obsoleto, com hardware bem barato e que pode ser vendido com lucro desde o primeiro dia. Um console que seja voltado para as massas, e não para o limitado segmento hardcore. Consoles high-end são caríssimos de projetar e produzir, e o grande público já mostrou que não está disposto a pagar mais do que 250 dólares por um videogame. A produção do PS3, no seu início, custava algo entre o triplo e o quádruplo disso. Na próxima geração o gap deve aumentar ainda mais, se as principais empresas do setor continuarem disputando qual delas é dona do console mais avançado tecnologicamente.

A coisa era assim...

Isso tudo, a princípio, sugere um cenário sombrio para os jogadores hardcore. Será que no futuro teremos todos que ficar nos agitando idioticamente para controlar avatares presos em "trilhos", em jogos rasos como um pires, e com gráficos vomitivos ou infantilizados? Penso que não. Novos modelos de negócios estão surgindo e podem colocar para escanteio todas as proprietárias de hardware high-end. Me refiro principalmente ao Steam e outras plataformas de distribuição digital. Elas oferecem ao usuário descontos e promoções impressionantes e, às desenvolvedoras, um canal mais próximo e mais econômico com o consumidor e a garantia de que seus títulos não serão pirateados. Tudo isso sobre uma plataforma aberta de hardware, que permite evolução constante e é capaz de ser escalada diferentemente para usuários com maior ou menor poder aquisitivo. Um aparelho que praticamente todos os lares (me refiro, claro, ao primeiro mundo, cujos países são o fiel da balança no que diz respeito ao mercado de games) possuem: o PC. Que precisa de apenas alguns upgrades para se tornar uma poderosa plataforma de games. Upgrades esses que, no total, saem bem mais baratos do que um console de videogame, se o objetivo for obter uma capacidade de processsamento gráfico semelhante.

... e terminou assim. Melhor e mais simples para todo mundo.

Muita água ainda vai passar debaixo da ponte antes dos consoles se tornarem extintos. Mas acredito firmemente que o futuro do setor repousa primordialmente sobre software (provavelmente proprietário), e não sobre hardware proprietário. Exatamente como aconteceu com os computadores pessoais, há vinte anos atrás. Alguém aí ainda sente saudades (de um ponto de vista meramente econômico) dos velhos Radio Shacks, Sinclairs, Commodores, Ataris e tantos outros? Eu, não. Mas a humanidade é meio afeita a condutas suicidas, então tudo pode acontecer. Inclusive nada.

Talvez seja mesmo necessário um novo crash dos videogames para enterrar idéias viciadas e abrir espaço para um novo ecossistema.

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