Planetóide X

Contra a Censura nos Games - Parte 1

terça-feira, dezembro 15, 2009 José Guilherme Wasner Machado 0 Comentários Categoria: ,

Outro dia, através do ótimo blog Duvido!, tomei conhecimento da mais recente tentativa de censura por parte do nosso governo. E, novamente, os jogos eletrônicos são o alvo. Se depender do senador Valdir Raupp do PMDB (aquele velho partido conhecido por sua ética, idealismo e honestidade - tá, exagerei no sarcasmo), o governo terá a palavra final sobre o que você, adulto, pagador de impostos e de plena posse das suas faculdades mentais, poderá ter acesso ou não em termos de jogos eletrônicos. Não sendo um assunto simples e nem óbvio - como talvez queiram o senador e seus seguidores - não dá para comentar em poucas linhas essa maligna iniciativa, de um autoritarismo truculento que vem se tornando cada dia mais comum e, pior, aceito pacificamente pela nossa população. Portanto, é um longo artigo, vou prevenindo. Vou separá-lo em duas partes, para não ficar cansativo. A segunda parte pode ser lida aqui.

Como sempre, nossos políticos não hesitam muito quando se trata de rasgar a constituição. Esquecem, convenientemente, que os jogos eletrônicos são apenas um tipo de mídia como qualquer outro: cinema, televisão, livros, quadrinhos, música, etc. Parece que na mente de alguns ainda prevalece a idéia de que os games são voltados apenas para crianças e adolescentes, apesar de várias pesquisas mostrarem que a maior parte dos seus usuários são adultos. Não é acidental que a indústria de jogos tenha se tornado maior que a do cinema. Como você deve imaginar, não foi um aumento nas mesadas infanto-juvenis que fez a diferença. Mas essa concepção atrasada (e, muitas vezes, propositalmente mal-intencionada) serve como pretexto perfeito para que as nossas autoridades paternalistas interfiram na nossa vida e na nossa liberdade de escolha. Nesse ponto, vale lembrar que já existe uma classificação etária para os jogos eletrônicos, não muito diferente daquela aplicada às produções cinematográficas. Deveria ser tarefa dos pais observar tais classificações e controlar o conteúdo ao qual os seus filhos têm acesso. Mas aí a preguiça e o comodismo falam mais alto. É infinitamente mais fácil apoiar a censura e o bloqueio de conteúdo a todos - mesmo aos adultos.

O moço aí quer ditar o que você, adulto, pode jogar ou não

Esse tipo de coisa não é novidade. Os quadrinhos já passaram por problemas parecidos, quando eram considerados uma mídia exclusivamente voltada ao público infanto-juvenil. Se dependesse da turma moralista de plantão (tais iniciativas invariavelmente partem de lobbies de base religiosa), obras de temática adulta como Watchmen, V de Vingança e Preacher nunca veriam a luz do dia. Robert Crumb, Garth Ennis e Alan Moore morreriam de fome. Ficaríamos para sempre restritos à Turma da Mônica e Walt Disney. E pouco importa se você tem mais de 30 anos. Hoje isso mudou e ninguém mais se espanta com HQs voltadas para o público adulto, como ninguém se importa de ir à banca e ver uma VIP ou Exame. Mas tal evolução nunca teria ocorrido se a sociedade fosse "protegida" pela censura governamental. Como essa que vem agora, para tentar impedir nosso acesso a produções que, eventualmente, desagradem às patrulhas religiosas e aos auto-proclamados "guardiões dos bons costumes".

Infelizmente as perspectivas não são nada boas, já que o DNA brasileiro tem grande propensão a aceitar e apoiar medidas autoritárias. Para piorar, pela redação recheada de generalizações e lugares-comuns, praticamente qualquer jogo poderá ser censurado arbitrariamente, já que qualquer um deles poderia ser considerado "ofensivo". Tem sexo antes do casamento? É ofensivo para os cristãos. Tem bebida ou mulheres sem burca? É ofensivo para os muçulmanos. Tem... hmmm... um automóvel? É ofensivo para os amish.

Já pensou se a indústria do cinema sofresse restrições parecidas com as desejadas pelo senador Valdir e os lobbies religiosos? Nós, adultos, teríamos que nos contentar apenas com material Disney-like. Não sei quanto a você, mas pessoalmente não acho um destino muito agradável para meus neurônios ser condenado a assistir exclusivamente a coisas como Hannah Montana, High School Musical e Twilight.


O projeto de Lei

A seguir, esmiúço as pérolas do Projeto de Lei do Senado nº 170, de 2006. O texto completo pode ser encontrado no post do Duvido! ou no site do senado.

"Muitos jogos de videogame apresentam lutas, perseguições, ataques e mortes. A tarefa do jogador é caçar e destruir o maior número possível de inimigos, representados com feições grotescas, monstruosas ou ridículas. Destruí-los é salvar o mundo nesses jogos."

Bem, nenhuma novidade sob o sol. Quantos filmes de Hollywood ou séries de televisão fazem a mesma coisa? Não há nada de errado com isso, a princípio. Podemos ter desde ótimos filmes, como Senhor dos Anéis ou Guerra nas Estrelas, a imbecilidades como Supernatural ou Transformers. Na verdade, até em novelas podemos ver coisas parecidas, como nas recentes (e involuntariamente engraçadas) produções da Record, do "bispo" Edir Macedo.

"Mas alguns jogos têm passado de brincadeiras de mau gosto, sendo arsenal de propaganda e doutrinação contra determinadas culturas."

Bem, se é para seguir por essa linha, então temos a obrigação de encarar o fato de que as religiões de modo geral também contêm um amplo "arsenal de propaganda e doutrinação contra determinadas culturas". Ou posturas. Ou costumes. Ou opções sexuais. A lista é longa. O preconceito e o ódio são produtos usuais da pregação religiosa. Normalmente, quem não segue seus princípios é considerado "do mal" e deve ser isolado ou censurado - se ainda fosse possível, à força. Em tempos mais antigos, o infiel era queimado na fogueira ou apedrejado. Na falta atual dessas opções, recentemente grupos católicos e evangélicos se mobilizaram para torpedear o projeto de lei que pune a discriminação contra homossexuais. Algo bem pior, portanto, que qualquer male que um jogo eletrônico pudesse causar.

Não é incomum vermos livros, filmes e músicas atacando as idéias alheias e fazendo propagandas das próprias. É comum encontrarmos professores de faculdade defendendo suas próprias ideologias e atacando aquelas que vão de encontro aos seus valores. Isso é normal e até desejado. Idéias são defendidas e atacadas o tempo todo. Triste é a sociedade onde tal dinâmica é impedida, e o raciocínio crítico e a capacidade de debate, auto-correção e evolução são esmagados porque o governo acha melhor tomar para si o controle do que pode ou não ser dito ou conhecido pelas pessoas. Triste a sociedade cujas pessoas abrem mão do direito de pensarem por si mesmas.

Toda mídia (e isso inclui os games) que veicula uma história ou uma idéia pode ser acusada de propaganda e doutrinação. O Poderoso Chefão, por exemplo, é uma obra-prima magistral do cinema (um dos meus filmes prediletos, por sinal), e já foi acusado de "propaganda" do estilo de vida criminoso e de preconceito contra os italianos. Tal idéia, claro,
é de uma parvoíce sem tamanho.


"O Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Michigan divulgou, em 2005, que os videogames mudam as funções cerebrais e insensibilizam os jovens diante da vida. Os jogadores frequentes sofrem danos a longo prazo em suas funções cerebrais e em seu comportamento."

Uma fraca tentativa de dar embasamento científico a essa deplorável tentativa de censura. A pesquisa citada demonstra que, no momento em que combate inimigos virtuais, o jogador está - Oh! Oh! Oh! - tendo pensamentos agressivos! Incrível! Aterrador! Quem poderia imaginar semelhante coisa?! Prêmio Nobel para esse povo!

O mesmo, por sinal, poderia ser constatado em torcedores de futebol, motoristas estressados, políticos pegos com a mão na massa, eleitores traídos por seus candidatos, religiosos que são obrigados a conviver com outros que não seguem seus dogmas, e por aí vai. Pensamentos agressivos fazem parte da natureza humana. Quantas vezes você pensou "que vontade de esganar esse fulano"? E quantas dessas vezes você já passou às vias de fato?

Eu conheci, ao longo da minha vida, centenas de praticantes habituais de jogos eletrônicos... e eles não são mais agressivos do que a média da população. Até diria que são menos. Penso que se fizéssemos uma pesquisa em nossos presídios ou hospícios, duvido que encontraríamos lá uma média de (ex, claro) praticantes habituais de jogos eletrônicos maior do que a média na população em geral.

Siga aqui para a segunda parte do artigo.

OUTROS POSTS

0 comentários

Por favor, fique à vontade para comentar, criticar ou sugerir. Mas não será permitido trolling, bullying, spam, preconceito e ataques meramente pessoais ou destrutivos.