Planetóide X

E agora, Zeebo?

terça-feira, setembro 14, 2010 José Guilherme Wasner Machado 1 Comentários Categoria: , ,

A nova versão do Zeebo
 Ao que parece, as coisas não andam nada boas para o lado do Zeebo, o "nosso" console de videogame. A primeira indicação nesse sentido são as vendas anunciadas do aparelho. Ou, melhor dizendo, não anunciadas. Sim, se ele estivesse vendendo bem, os números estariam sendo divulgados aos quatro ventos. Afinal, sucesso é garantia de continuidade. Uma ampla base de usuários significa longevidade e um contínuo fluxo de novos jogos. As baixas vendas, por outro lado, são um verdadeiro balde de água fria na intenção de compra dos consumidores. Ninguém quer ser companhia na desgraça. Ninguém quer ficar sentado só, no meio de um deserto, esperando algo acontecer. Dessa forma, é no mínimo suspeita a atitude da Tectoy (ops, Zeebo Inc.) de não divulgar o número de zeebos vendidos.

Outro indício de que as coisas não vão nada bem é a súbita mudança de rumo no foco do console, além da queda abrupta de preços. Me refiro, claro, ao recente lançamento do "novo" Zeebo. Que nada mais é do que o antigo Zeebo, mas com um teclado e outras pequenas modificações. O foco da "nova" versão, segundo o fabricante, passa a ser o mercado infantil. Não me surpreende. Crianças não têm muito poder de escolha. Seus pais é que vão decidir a compra, e sabemos que eles, via de regra, não entendem chongas de videogame. Seu critério de escolha costuma ser o preço, e olhe lá. Não é uma coincidência, portanto, que finalmente o Zeebo será vendido por um valor condizente com o seu hardware. O console despencou para o patamar de 300 reais - um valor, aliás, já defendido neste blog lá no seu lançamento. Fica só o assombro pela margem de lucro estratosférica que a Zeebo Inc. pretendia ganhar anteriormente. Afinal, podemos ter certeza de que esse preço recente de 300 reais já inclui uma razoável margem de lucro. Sendo assim, o que dizer dos pornográficos R$600 cobrados até pouco tempo atrás? Como dizia São Asimov, ganância demais vira tiro no pé.

PS2 x Zeebo: goleada previsível

Ainda que muito bem vinda, a queda de preço de 50% (!) não dá muitas esperanças de que o console tenha vendido grande coisa até aqui, para infelicidade dos atuais proprietários. E o novo foco no mercado infantil torpedeia de vez as chances de que a plataforma venha a ter uma boa biblioteca de jogos hardcore. A intenção agora é agradar às crianças pequenas, por meio de jogos educacionais, Turma da Mônica e afins. E agradar também aos pais, por meio de um acesso à internet rigidamente controlado. Apenas 50 endereços poderão ser acessados no início. Por preços, diga-se de passagem, nada infantis. R$3,90 por duas horas, R$5,90 por quatro horas, e assim por diante. "Baratim", né?

Se fizermos bastante silêncio, acho que dá para escutar os milhares de adolescentes e adultos destruindo os seus Zeebos e suas cópias de "Extreme Rolimã" a sapatadas.

Na verdade, nada do que está acontecendo é minimamente inesperado. Desde o início, a saga do Zeebo era a crônica de uma morte anunciada. O preço do console e dos seus jogos era simplesmente aviltante, e sua tentativa de ser uma alternativa ao PS2 beirava o patético. Ainda assim, como ocorre bastante em terras tupiniquins, muita gente embarcou nessa, numa espécie de catarse nacionalista. Afinal, tratava-se do "console verde-amarelo", salve, salve! Nuncantesnessepaís havia ocorrido algo semelhante. Brasil no primeiro mundo! Chupem, imperialistas! Só que o ufanismo patriótico nunca é um bom ponto de partida para nada, visto que, costumeiramente, subjuga completamente a razão. E foi o que aconteceu aqui. Quem manteve a cabeça minimamente no lugar, ficou longe do Zeebo. E evitou pagar meeco.

Vai uma emocionante partida de Extreme Rolimã aí?

O interessante é que há enorme potencial no mercado consumidor de baixo orçamento. Bastava ter mais imaginação e menos ganância e esperteza. O público-alvo pode ter pouco dinheiro, mas isso não significa que ele também tenha pouca inteligência ou discernimento. É essencial respeitar o comprador. Foi o caso, por exemplo, do Dingoo, um produto de especificações modestas, mas de preço altamente acessível e uma boa estratégia de vendas. Por isso, não foi surpresa o seu sucesso, inclusive em terras tupiniquins. (conheça mais o Dingoo aqui)

Esse é um sucesso que o Zeebo poderia compartilhar, se ele tivesse tido, lá no início, um modelo de negócios mais inteligente. Bastava um pouco de imaginação. Vejamos algumas opções, bem mais interessantes:

  1. Que tal se o Zeebo seguisse a mesma premissa do Dingoo? Ou seja, ser um portátil voltado para emulação de jogos? Mas, ao contrário do seu equivalente chinês, oferecesse suporte legal às ROMs? Estamos falando de milhares de títulos de alta qualidade, cujas desenvolvedoras não estão lucrando um tostão sequer com eles, graças aos emuladores piratas que rodam por aí. O consórcio Zeebo poderia negociar o pagamento de royalties sobre esses títulos. Em troca, adaptaria as ROMs para rodar em emuladores oficiais no console, e elas seriam distribuídas facilmente e à prova de pirataria, por meio de sua rede 3G. Seria uma espécie de GOG.com, mas voltado para jogos MAME e afins. O cliente, por sua vez, teria a vantagem de não se preocupar com detalhes técnicos complicados de instalação e configuração. Sem falar na certeza de usar um produto legalizado, e poder contar com uma biblioteca já pronta, que ofereceria qualidade e quantidade.
     
  2. E se o consórcio Zeebo entrasse em contato com a Sega e as três empresas (Sega, Tectoy, Qualcomm) desenvolvessem um novo console de baixo custo, com distribuição de jogos via rede 3G, e que fosse 100% compatível com o amado Dreamcast? Dessa forma, herdando toda a sua excelente biblioteca de jogos? Para a Sega, seria uma boa chance de voltar a lucrar com títulos já prontos e disponíveis. Para a Tectoy e a Qualcomm, a possibilidade de economizar milhões de dólares em pesquisa, usando uma plataforma tecnológica já conhecida. Para o público de menor poder aquisitivo, uma ótima oportunidade para botar as mãos, por um preço acessível, em um console de alta qualidade, com jogos de primeira linha e, por que não dizer, "avançado"? Lembrem-se de que estamos falando de um mercado praticamente virgem, que consome até hoje jogos da era 8 bits, como a Dynacom pode muito bem atestar. E a iniciativa teria ainda a vantagem de capturar o mercado cativo de fãs do Dreamcast, órfãos desde a época em que a Sega decidiu jogar a toalha. Poderíamos até mesmo ver novos títulos sendo lançados para a plataforma, para alegria desses fãs. E tudo à prova de pirataria, graças à rede 3G.
     
  3. Numa estratégia mais pé-no-chão, e aproveitando os investimentos já feitos no Zeebo, que tal lançar um portátil simples, com o mesmo hardware do Zeebo, para concorrer diretamente com o Dingoo? No caso, sem a "emulação legalizada", mas abrindo a plataforma, de forma que os usuários pudessem instalar os programas e emuladores que bem entendessem. Afinal, ninguém está interessado em jogar Extreme Bóia Cross... Na minha opinião, seria um produto vencedor. Afinal, seu hardware é superior ao do Dingoo, e sairia bem mais barato - R$300,00 contra os R$450,00 do clone da Dynacom.
O Dingoo: estratégia inteligente

Enfim, há um mercado inexplorado aí fora, de pessoas que não têm condições de comprar nem mesmo um PS2. É possível lucrar bastante com esse público, mesmo com produtos baratos e despretensiosos. Mas é preciso ter ousadia, criatividade e, sobretudo, respeito pela inteligência alheia. O problema é que a "esperteza" do empresarius tupiniquins medius não ajuda nem um pouco. Contra isso, não há muito remédio.

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1 comentários

  1. Guilherme Wasner Machado

    concordo plenamente com seu comentario, muito interessante os pontos que voce colocou parabens

    tambem acho que uma das varias falhas do zeebo foram:

    substimar a inteligencia do brasileiro no sentido do entretenimento

    mentir alegando "console da 7 geraçao" e alegando que era pra competir com o PS2, quando o zeebo mal chega aos pes do PS2.

    produzindo jogos estupidos e idiotas sem o minimo de diversao e gameplay satisfatorio

    alegar que o seu produto era direcionado para jovens quando todo o tempo era para crianças e como voce mesmo citou "nao tem força de opniao"

    cara nem a gigante Nintendo tento brigar com a SONY(WII) ai vem uma "doidinha qualquer"(Zeebo.inc) tentar competir com uma gigante

    *OBS: a nintendo disse que para a 7 geraçao nao teria como lutar contra o poder do PS3 e ou 360 entao descidiu mudar a abordagem e o publico alvo

    fonte: wikipedia/wii
    artigo em ingles

    e ainda por cima tento evocar um sentimento de "patriotismo" alegando ser um produto "nacional", faça-me o favor!

    a zeebo inc mentiu para o consumidor e o chamou de burro e agora ira colher os frutos

    parabens pelo post Guilherme Wasner Machado

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