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Roleplay Oktoberfest - Parte 3 - Fallout: New Vegas

terça-feira, novembro 23, 2010 José Guilherme Wasner Machado 1 Comentários Categoria: , , , ,


No panteão dos melhores RPGs de todos os tempos, não podem faltar dois títulos: Fallout e Fallout 2. Desenvolvidos pela lendária Black Isle, eles impressionam por sua originalidade, temática adulta, humor negro e inusitada liberdade de ação. São jogos realmente fascinantes, e que fogem do tradicional cenário high fantasy, que são o feijão com arroz de 90% dos RPGs. No universo alternativo de Fallout, uma guerra nuclear devastou o planeta. Após um longo período de rescaldo, a humanidade luta para se reerguer em meio aos escombros ainda radioativos, e grupos organizados tentam obter poder sobre os infelizes sobreviventes. Nas terras desoladas e nas cidades semi-destruídas, a lei é apenas uma lembrança distante, e os fracos definitivamente não têm vez. Mas não é só por se manter distante de anões, elfos, espadas e magia que Fallout é tão incomum. Sua cultura, sua tecnologia e seus visuais são derivados diretamente dos anos 50. É um mundo em que válvulas, Dean Martin e saias rodadas nunca saíram de moda. Um universo atemporal, onde o jogador se sente simultaneamente no passado e no futuro. Por suas inúmeras qualidades, Fallout ganhou um status cult e uma legião de admiradores. Só que, numa plataforma assolada pela pirataria generalizada, a competência e a originalidade não são suficientes para garantir sobrevivência econômica. Para tristeza geral, a Black Isle acabou indo à bancarrota, assim como sua publisher, a Interplay. Com elas, foi-se o universo Fallout.


A inesquecível abertura de Fallout

Nesse cenário não muito animador, foi uma baita surpresa, em 2004, a revelação de que a Bethesda havia comprado os direitos de continuação da série, e que um terceiro jogo já estava no forno. Mas não foram poucos os que ficaram preocupados com a notícia, tendo em vista os rumos que a publisher/desenvolvedora estava dando à sua própria franquia, The Elder Scrolls. O título mais recente, Oblivion, havia recebido sua cota de reclamações, por conta da jogabilidade bastante simplificada, quando comparada ao jogo anterior, o magnífico - ainda que um tanto intimidador - Morrowind. Tratava-se, claro, de uma tentativa de alcançar um público mais amplo. Afinal, com o custo crescente para se produzir um título AAA, o público potencial de RPGs hardcore não era mais suficiente para pagar as contas.

 Fallout 1 e 2 apresentavam visão isométrica e combate em turnos (versão MODificada)

Ainda que os fãs mais tradicionais não aceitassem de bom grado as necessidades comerciais por trás dessa tática, ela certamente garantiu o sucesso da série e, portanto, a sua sobrevida. E sem descaracterizá-la, vale dizer. Se não fosse por esse direcionamento, é possível que The Elder Scrolls tivesse o mesmo destino de Ultima, Wizardry, Bard's Tale e tantas outras séries bacanas de CRPG que desapareceram e que talvez jamais venham a ser conhecidas pelos jogadores mais jovens (espero estar errado). Recebi então, não com desconfiança, mas com muita alegria, a notícia de que Fallout ressurgiria das cinzas pelas artes de uma desenvolvedora tradicional e completamente reverente ao material original. Eu teria a chance de caminhar novamente nas paisagens desoladas e violentas das wastelands, com um rifle na mão e uma nuka-cola gelada na outra. O que poderia ser melhor?

Nuka Cola: desce redondo, não dá gases e contém apenas 5 rads/seg

Essa expectativa positiva não era necessariamente compartilhada pelos fãs mais radicais, que logo profetizaram que Fallout 3 seria apenas um "Oblivion com armas", fazendo troça dos piores defeitos desse título, e jamais se lembrando de suas várias qualidades. Deveriam perceber que Oblivion não fez sucesso à tôa, ainda que a qualidade do seu texto e de sua jogabilidade não estejam, de fato, no mesmo nível de Fallout. Com a mítica dos dois títulos originais crescendo além da medida e com os seus defeitos sendo progressivamente esquecidos ou relevados, o fato é que seria uma missão impossível agradar a essa galera. Penso que seria difícil satisfazê-los ainda que o novo jogo fosse perfeito. O que não foi o caso,é óbvio.

 Fallout 3 se passava em uma Washington destruída e radioativa

Fallout 3, sem dúvida, carrega muitos dos defeitos típicos dos jogos da Bethesda. Há problemas de roteiro e balanceamento. Há facilidades excessivas. Há idéias idiotas, como os bobbleheads. Mas, apesar dessas falhas, ele é um jogaço, e um prato cheio para os fãs de RPGs sandbox, cada vez mais órfãos de bons títulos. A desenvolvedora foi muito bem sucedida em emular a atmosfera característica da série, maximizando-a com seu reconhecido talento de criar mundos abertos. Sobretudo, teve grande êxito (ainda que com algumas ressalvas) ao inventar uma improvável amálgama de combate em tempo real - recurso essencial para o sucesso de um título nos dias atuais - com a jogabilidade baseada em turnos, característica dos jogos originais e algo caro aos fãs da série. Ainda que longe de ser perfeito, Fallout 3 é fascinante, envolvente e uma delícia para quem gosta de se aventurar, sem as amarras dos jogos mais lineares.

 Fallout 3

O mercado recompensou o esforço da Bethesda e, a despeito dos narizes torcidos dos fãs mais xiitas, o terceiro capítulo foi um grande sucesso de público e de crítica (Metacritic: 91 em 100). A bem sucedida produção se mantém atraente até hoje, graças às centenas de mods feitos pelos jogadores, que consertam os seus defeitos, refinam a sua jogabilidade e acrescentam uma quantidade enorme de conteúdo inédito a um jogo que já era absurdamente rico em possibilidades. Essa popularidade, nunca desfrutada pelos jogos originais, tornou o nome da série conhecido mesmo nos antes inexplorados rincões dos console gamers, e garantiu a sua continuidade. Um sonho improvável há alguns anos, para dizer o mínimo. O anúncio de uma sequência, portanto, não era apenas algo aguardado a qualquer momento. Era inevitável. Mas não seria "Fallout 4" o próximo capítulo dessa história, e sim um spin-off, carregado de novidades. É onde finalmente chegamos a Fallout: New Vegas.

 A tela do V.A.T.S: Amálgama de combate em tempo real e por turnos

A grande surpresa do novo título é que a Bethesda delegou o seu desenvolvimento à Obsidian, uma casa especializada em RPGs e conhecida por terceirizar continuações de jogos de outras empresas. São dela, por exemplo, as continuações de Neverwinter Nights e Knights of Old Republic. O ponto fraco da Obsidian é que, via de regra, seus títulos acabam prejudicados por prazos draconianos e lançamentos prematuros. Como veremos mais adiante, este é o caso também de Fallout: New Vegas. O lado bom - ou melhor, ótimo - da notícia é que a Obsidian se tornou o lar de vários profissionais egressos da finada Black Isle e que participaram da criação dos dois primeiros jogos da franquia. Com tal pedrigree, New Vegas bem poderia se tornar o melhor dos dois mundos.

Fallout: New Vegas: viva a eletricidade!

O novo jogo, que reaproveita a engine de Fallout 3, transfere a história de volta para o outro lado dos Estados Unidos, saindo de Washington DC e indo para as vizinhanças de Las Vegas - ou melhor, do que sobrou dela. Não sendo - infelizmente! - um alvo militar prioritário, a cidade do pecado (e da estética brega) resistiu muito melhor do que a capital do país. Melhor ainda, a proximidade da famosa hidrelétrica Hoover Dam, preservada intacta, garante o fornecimento de energia elétrica à população. E às máquinas de caça-níqueis, é claro. Por fim, a presença maciça do exército da NCR (New California Republic) está aos poucos restaurando a lei e a ordem. Mas nem tudo são flores. Vários grupos disputam o controle da região, enfraquecendo a influência da NCR, que se vê progressivamente acuada. Você - adivinhe! - estará bem no meio da confusão. Será uma estadia agitada.

 Fallout: New Vegas

Fallout: New Vegas foi lançado há um mês, em meio a uma grande expectativa - não era para menos, dada a sua ascendência ilustre. As críticas da imprensa especializada, de modo geral, exaltaram a qualidade superior da história e dos diálogos, e a evolução da jogabilidade, com relação a Fallout 3. Mas também denunciaram a quantidade astronômica de bugs, principalmente nas versões para consoles. As notas do jogo foram fortemente prejudicadas por esse fator, mantendo-se no patamar conservador, mas favorável, de 80 a 85% (Metacritic: 86 em 100). O notável é que muitos dos reviewers incentivaram seus leitores a adquirir o título, mesmo com todos os bugs relatados.

A aventura não precisa mais ser solitária em Fallout: New Vegas

Eu segui o conselho, comprei o jogo, e de consciência tranquila endosso essa opinião - pelo menos em relação à versão PC. Ainda mais agora que alguns patches já foram lançados. Estou me divertindo enormemente com New Vegas. Joguei por cerca de 35 horas, e mal arranhei o conteúdo. Até o momento, considero-o melhor do que Fallout 3. Não chega a ser uma revolução, mas é, sem dúvida, uma evolução. É uma adição honrosa à franquia, e um título obrigatório na coleção de qualquer fã de RPGs sandbox. Se você gostou de Fallout 3, penso que irá amar New Vegas, a despeito de seus problemas técnicos, com os quais basta ter paciência. Vale dizer que dezenas e dezenas de mods já estão sendo lançados para aprimorar o jogo ainda mais. Mas não irei me estender mais sobre isso, já que irei publicar um post específico e bem mais detalhado, relatando as minhas primeiras impressões sobre a produção.

Fallout: New Vegas - O trailer da E3 2010

Foi uma longa e tumultuada jornada desde 1997, quando Fallout surgiu e conquistou o coração de um público relativamente pequeno, mas fiel. Desde então, a série cresceu e ganhou o mundo, da forma mais improvável possível. O que virá a seguir? Fallout 4? Fallout MMO? Não sei mas, seja o que for, estarei na primeira fila aguardando. Com uma nuka-cola bem gelada.

[UPDATE] Confira a resenha completa do jogo aqui.

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