Planetóide X

Conhecendo a História dos RPGs de Computador

sexta-feira, janeiro 28, 2011 José Guilherme Wasner Machado 0 Comentários Categoria: , , ,


Houve um tempo em que um computador pessoal era artigo inacessível para a esmagadora maioria da população brasileira (classe média incluída). Na época da nefanda "reserva de mercado de informática" - uma das idéias mais estúpidas que já passou pela cabeça de nossos governantes - a distorção chegava a níveis bizarros. Um IBM PC (1), naquele período negro, podia custar mais do que um automóvel zero. Sério. Um belo dia, a reserva de informática foi implodida, mas seus efeitos deletérios ainda perdurariam por um bom tempo. Demoraria bastante antes que os preços dos computadores se tornassem aceitáveis. Entusiastas de jogos eletrônicos não tinham muita saída. Ou faziam enormes sacrifícios para comprar uma máquina minimamente adequada, ou desistiam e iam para os consoles. Como esses últimos eram muito mais acessíveis, tanto do ponto de vista econômico como em facilidade de uso, logo se tornaram amplamente preponderantes, e verdadeiros sinônimos de jogos eletrônicos aqui nas terras tupiniquins. A enorme biblioteca de games do PC foi solenemente ignorada por estas bandas, exceto por um ou outro título mais popular. Essa alienação atingiu, inclusive, a imprensa nacional dita "especializada". Só agora, quando os jogos "estilo PC" finalmente dominaram o mercado de consoles, e o uso de computadores se tornou muito mais abrangente, é que o público, assim como os nossos intrépidos repórteres de games, estão tomando um maior conhecimento da riqueza que a plataforma sempre ofereceu. Todavia, mesmo com esses avanços, o desconhecimento sobre o seu passado permanece, principalmente para além de 10 anos.


Não haveria maior problema na alienação da imprensa especializada brasileira, se não fosse sua típica arrogância. Mais regra do que exceção, nossos jornalistas de games costumam partir de um pressuposto para lá de auto-indulgente: se eles não conhecem a existência de alguma coisa, é porque aquilo simplesmente não existe. Ponto final. Daí não surpreende vermos revistas de circulação nacional afirmarem verdadeiras sandices, como "antes de Diablo não existia RPG no PC", ou "os RPGs ocidentais só se tornaram relevantes após Mass Effect". Calma, não vomite. Esse quadro não muito animador se agravou com o encerramento da Edge nacional, a única revista local sobre games que realmente transmitia profissionalismo e credibilidade.

Com o advento da Internet, o público felizmente não depende mais da mídia tradicional para aprender sobre a fascinante história do PC Gaming. Listo a seguir algumas fontes que julgo serem de grande interesse para o leitor "arqueólogo" e interessado nessa obscura área do conhecimento humano. Como o foco deste blog são CRPGs, os textos indicados giram em torno desse assunto. Vamos lá?

  • Antes de Diablo - Como disse anteriormente, uma famosa revista brasileira de games cometeu a temeridade de dizer que "antes de Diablo, não existiam RPGs no PC". Esse engano vergonhoso (pelo menos para quem afirma ser profissional de games) é comum aos que não conhecem bem a plataforma. Afinal, Diablo foi o primeiro RPG de computador que finalmente rompeu as barreiras do gueto e atingiu o público mainstream. Esses jornalistas hereges provavelmente teriam uma síncope se descobrissem que foram justamente os primeiros CRPGs, lá no início dos anos 80, que atravessaram o Pacífico e inspiraram o surgimento de franquias orientais famosas e tão caras a eles, como Final Fantasy e Dragon Quest.

    Para mostrar o outro lado da moeda, o ótimo blog Retina Desgastada vem publicando uma série de artigos muito interessantes sobre CRPGs antigos, mostrando que, desde BEM antes de Diablo, a plataforma possuía sim, obrigado, inúmeros (e bons) jogos no gênero. Já foram abordados os roguelikes e a sagrada franquia Ultima, mas muito mais virá por aí. Fiquem ligados nas atualizações, pois o Aquino é uma máquina de escrever!
     
  • Forgotten Ruins: The Roots of Computer Role-Playing Games - o Bitmob destrincha as origens dos CRPGs, abordando algumas das mais tradicionais desenvolvedoras do passado, como a Interplay (Bard's Tale), Origin (Ultima), SSI (Pool of Radiance), Sir-Tech (Wizardry), New World Computing (Might and Magic), entre outras. O resultado é caprichado, inclusive com scans de antigos anúncios publicitários e fotos dos itens que acompanhavam as caixas dos jogos. Enfim, uma janela fascinante para o passado. Acompanhem o site com regularidade, pois volta e meia eles publicam algum novo artigo nessa série.
     
  • The CRPG Addict - o dono desse singular blog se incumbiu de uma tarefa no mínimo épica: jogar todos - repito: TODOS! - os CRPGs já feitos até hoje. Se conseguir, bardos farão poemas e canções em sua homenagem. O blogueiro não emprega nenhum critério de excelência ou relevância histórica. Ele joga tanto o luxo quanto o lixo, à medida que acompanha a cronologia da Wikipedia. Para conseguir cobrir literalmente centenas de títulos (até agora foram "apenas" 43), é claro que ele não atravessa cada um do início ao fim. Em vez disso, o blogueiro joga um mínimo de seis horas em cada CRPG, podendo estender até o final do jogo se valer a pena. Para compensar, ele 1) não pode usar cheats, 2) não pode consultar walkthroughs e 3) não pode recarregar o jogo para oportunisticamente recuperar algum membro da equipe que tenha sido morto. O objetivo disso tudo é realmente experimentar o título, sentindo suas forças e fraquezas, sem usar truques sujos. Para quem gosta de CRPGs clássicos, é um endereço obrigatório.

  • The History of Computer Role-Playing Games: o tradicional Gamasutra publicou aquele que talvez seja o artigo mais completo já escrito sobre o tema. Acreditem em mim, vocês não vão querer perder esse aqui. Seu autor, o jornalista Matt Barton, realizou um minucioso trabalho de pesquisa, e o resultado final é primoroso. São muitas e muitas páginas de informações interessantíssimas, divididas em três partes (The Early Years, The Golden Age, The Platinum and Modern Ages). Para os jogadores pré-cambrianos (como eu), trata-se de uma fonte inesgotável de nostalgia e saudosismo.

    O sucesso do artigo foi tanto que, posteriormente, Barton ampliou-o na forma de um livro de 450 páginas, intitulado Dungeons & Desktops (em referência, claro, ao tradicional RPG Dungeons & Dragons). Eu tenho esse livro e o recomendo amplamente a todos os que se interessam pelo assunto (vocês podem ler um pedacinho dele aqui). Gostaria apenas que o papel empregado fosse de melhor qualidade, e os screenshots viessem em cores, pois frequentemente é impossível para o leitor distinguir alguma coisa neles. Espero fazer uma resenha mais detalhada sobre esse ótimo livro aqui no Planetóide X.

    Matt Barton também é autor de outro livro sobre a história dos games, com o singelo (e curto) nome Vintage Games: An Insider Look at the History of Grand Theft Auto, Super Mario, and the Most Influential Games of All Time. Está na minha lista de compras.


Esses, claro, são apenas alguns exemplos por onde vocês podem começar. Existem vários outros artigos menores, mas igualmente interessantes. Para citar alguns poucos: The History of Bioware (Eurogamer), Chasing D&D: A History of PC RPGs (1Up), e (ampliando um pouco o leque) The History and Theory of Sandbox Gameplay (Gamasutra). Mas há muito mais, basta pesquisar. Algo que, pelo visto, muitos dos nossos auto-intitulados jornalistas de games se recusam a fazer, talvez por acharem abaixo da sua dignidade. Bem, o vexame é somente deles.

Torço para que esses textos não apenas ajudem os leitores a conhecer melhor a plataforma PC, mas, quem sabe, inspirá-los a experimentar alguns de seus melhores exemplares. Só tomem cuidado... o risco de se apaixonar é enorme.


(1) Só uma observação: na verdade, o termo CRPG não diz respeito apenas aos RPGs do IBM PC (e seus descendentes modernos), mas a qualquer computador, incluindo aí os mainframes. De fato, existem inúmeros CRPGs importantes surgidos bem antes do advento do IBM PC, e que fizeram a alegria de muitos proprietários de Apples, Commodores e outras plataformas da época.
(2) Apesar da minha diatribe contra o jornalismo nacional de games, gostaria de prestrar meus respeitos à revista Old Gamer. Embora seu foco principal sejam os jogos antigos de console, eles também trazem muitas informações legais sobre o PC Gaming clássico. Vale uma conferida. E muita reza braba, para que ela não siga o mesmo caminho da Edge brasileira.

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