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Os Games, como mídia, amadureceram. E os Gamers?

segunda-feira, fevereiro 21, 2011 José Guilherme Wasner Machado 14 Comentários Categoria: , ,


A cena vocês provavelmente já conhecem. O pirralho está lá na água, brincando alegremente com os coleguinhas. Esperneia daqui, ajeita as boias acolá, enfia o dedo no olho do amiguinho (tá, essa eu inventei), o sol brilha quente no céu, as gaivotas voam, os passarinhos cantam. Ninguém percebe que toda essa vadiagem (eu disse vadiagem) está prestes a acabar. Tã-râ... tã-rã... tan-tan-tan-tan-tantatantanTANTANTANTAN... iiaaaiaiaAaAaAARrRGH! Quanto o povo percebe, já é tarde demais. O gigantesco tubarão, que todos julgavam distante, resolve aparecer para um lanchinho. É o fim do inocente moleque.

A sequência descrita acima é uma das mais fortes de Tubarão, o grande sucesso de crítica e de público de Steven Spielberg. Ela é chocante, sem dúvida, mas essencial para estabelecer os termos do filme. "Agora a conversa é séria" - é a mensagem que o diretor parece nos transmitir, enquanto tira as luvas de pelica - "Acabou o tempo para brincadeirinhas". Ficaríamos dois anos sem ter coragem de pisar no mar. Maldito Spielberg.

O interessante dessa sequência é que ela raramente é vista de forma negativa. Quando ela é citada por alguém, quase sempre vem acompanhada por elogios à coragem e à honestidade do diretor. De forma alguma a cena é considerada supérflua ou apelativa, como uma tentativa de provocar polêmica e de chamar a atenção. É evidente que ela se integra organicamente com a proposta do filme. Fornece-lhe realismo, credibilidade e um contexto emocional/dramático. A partir dela, o público entende que Tubarão é para ser levado a sério. Que não se trata de mais um "Terrorzinho B", para adolescentes levarem sustos, darem boas risadas e jogarem pipoca uns nos outros. Bem-vindos ao mundo adulto, ao mundo real. Ele não é necessariamente divertido.

É curioso notarmos que quando o mesmo expediente é usado no universo dos jogos eletrônicos, essa percepção amadurecida desaparece completamente. Mesmo quando se trata de um trailer - ou seja, um "filme", em última análise - e não de um jogo propriamente dito. Como estudo de caso, vou citar a recente exibição do trailer de Dead Island (classificação 18 anos), onde uma menina sofre um ataque zumbi, com previsíveis consequências. Confira até o final:


É um trailer muito bem feito, com sofisticados recursos narrativos que conferem um certo lirismo à cena. Ainda assim, a sequência é chocante. O objetivo, na minha opinião, é envolver o espectador emocionalmente. Fazê-lo compreender a gravidade da situação dos protagonistas. Sentir empatia por aquela família, compartilhar da sua tragédia, comover-se com seu cruel destino. E com isso perceber que o título em questão não será apenas uma aventurazinha juvenil como tantas outras, nos moldes de "Irado! Vamos atirar nesses zumbis fedorentos, urrúúú!". É aqui que Dead Island anuncia a sua grande ambição (se será realizada ou não, não tem qualquer importância): transcender o batido survival horror de teor adolescente. A julgar pelo trailer, o novo título almeja se tornar o equivalente, no mundo dos games, de obras realistas como Extermínio, Eu Sou a Lenda e, quiçá, a nova versão de Madrugada dos Mortos. Mas a realidade, infelizmente, é algo que atinge a todos. Inclusive os mais vulneráveis e os mais amados, como Tubarão tão bem nos demonstrou. Terminam aí, porém, as similaridades entre as duas obras.

O trailer de Dead Island, ao contrário do filme de Spielberg, provocou enorme polêmica na Internet. Ao que parece, a percepção moral da maioria das pessoas é bem diferente quando o foco é um jogo eletrônico. Choveram protestos pela morte da pobre garotinha digital. Nunca um conjunto de "0s" e "1s" foi tão pranteado. Pais amorosos expressaram sua indignação com surpreendente veemência, enxergando os rostos dos próprios filhos na protagonista virtual. Imagino que muitos desses guardiões da moral sequer levantaram a sobrancelha para passagens similares na literatura ou no cinema. De fato, não me surpreenderia se eles fossem também felizes possuidores do DVD de Tubarão, edição especial de aniversário.

Eu tenho uma teoria: se Dead Island fosse um filme de cinema, e não um jogo eletrônico, e se o seu trailer fosse feito com atores reais, ele provocaria bem menos protestos. Talvez mesmo nenhum. O publico permaneceria imperturbável no escurinho do cinema, comendo os seus enormes baldes de pipocas com a habitual esganação, esperando pacificamente a atração principal começar. O trailer não seria assunto nem mesmo no boteco pós-sessão.

 A vida não é fácil para os infantos em Tubarão, de Steven Spielberg (fonte da imagem)

A explicação para a incoerência é simples, a princípio. Sabemos há longa data que existe um enorme preconceito contra os games na cabeça da maior parte do público "leigo". Persiste neles a imagem de que os jogos eletrônicos são "coisa de criança". Fale "jogos eletrônicos" com eles, e formar-se-á em suas mentes a imagem de um encanador bigodudo, vestido com um macacão vermelho, pulando loucamente em cenários coloridos. É por isso que quando esses desavisados descobrem que um determinado jogo exibe "cenas de sexo", a coisa toda vai parar nas manchetes dos jornais. Escândalo! Ultraje! Mesmo quando a cena "inapropriada" se resume a alguns beijos e abraços. A novela das sete veicula coisas muito mais picantes, sem que nenhuma dona de casa mande as crianças se retirarem da sala. Mas ai - AI! - de um jogo que fizer a mínima insinuação sexual, ainda que possua uma classificação para maiores de idade claramente estampada na caixa. Esse comportamento histérico e tresloucado é constantemente reforçado por reportagens sensacionalistas de uma mídia desinformada ou imbuída da mais pura má-fé, e assimilada rapidamente por pais genuinamente preocupados com o que seus filhos vêem.

É uma boa explicação, e serve como uma luva para o caso Dead Island. Porém, está longe de ser completa. O que me preocupou não foram as críticas oriundas dos leigos. Essas são mais do que previsíveis e esperadas. O que realmente me desanimou foi constatar que muitos dos ataques partiram dos próprios gamers. Basta dar uma olhada nos fóruns de discussão e nas seções de comentários dos sites especializados. Para muitos jogadores, o trailer não poderia exibir a morte de uma criança. Ponto. Foi apelativo. Foi de extremo mau-gosto. Foi chocante. Extremamente chocante. Inesquecivelmente chocante! Trata-se de uma linha que os games (ou mesmos os trailers de games) não poderiam cruzar. É game over. Estaremos abandonando nossa humanidade, será o fim da civilização, e que São Miyamoto nos proteja!

 Eu pessoalmente prefiro uma realidade alternativa menos reconfortante.

É interessante, não é? Nós, jogadores, éramos os primeiros a defender que os jogos eletrônicos amadureceram, que o seu público atual é composto por todas as faixas etárias, com predominância de adultos. "Games", dizíamos, "são apenas uma mídia como outra qualquer". Como o cinema, os quadrinhos, a música e a literatura. Bem, se essa afirmativa for mesmo válida, por que o diretor de um trailer de games não deveria ter os mesmos direitos de um diretor de cinema? De almejar algo sério, maduro, realista? Porque um trailer como o de Dead Island é reprovado com tanta veemência, e um filme como Tubarão não? No final, parece que mesmo entre nós, gamers, persiste a imagem dos jogos eletrônicos como algo mais pueril e inocente. Uma mídia mais infantilizada do que as demais, com limites mais estreitos e uma moral muito mais rígida e menos tolerante (*). A Liga das Senhoras Católicas de Santana agradece.

Se os próprios jogadores compactuam com essa percepção, como desejar que o resto do público "leigo" aceite nossas afirmações de que os jogos eletrônicos possuem um caráter universal? Como protestarmos contra as constantes tentativas judiciárias de pura e simples proibição de determinados títulos, que objetivam proteger um público considerado incapaz e imaturo? Simples: não há como fazê-lo. Bastou o velho dogma ser desafiado minimamente a sério para o castelo inteiro vir montanha abaixo. Com a ajuda das nossas próprias picaretas.

Ao que tudo indica, muita água ainda terá que passar debaixo da ponte antes que os jogos eletrônicos sejam tratados em pé de igualdade com as demais mídias. Nossa geração não me parece psicologicamente preparada para isso. Quem sabe nossos filhos ou netos tenham melhor sorte nessa batalha. Desde que um apocalipse não os transforme todos em zumbis. Nesse caso, esqueça a filosofia e preocupe-se mais em proteger o seu pescoço. Longe das janelas.

(*) Obs.: não estou insinuando tampouco o "liberar geral". Conto com o bom senso e a inteligência do leitor nesse ponto.

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14 comentários

  1. Sensacional o artigo, Wasner!

    O estigma é tanto que até algumas produtoras/publishers fazem uso do mesmo. Sim, estou falando da campanha infeliz de Dead Space 2. A revolta foi quase generalizada por parte dos gamers "adultos". Até eu me senti ofendido e repensei a possibilidade de comprar o jogo.
    E é até curioso, por falta de um termo melhor, ver que muitos dos que fizeram posts/artigos/comentários inflamados contra a EA estão atacando o trailer de Dead Island.
    É tão sem sentido que chega a ser ridículo.

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  2. Obrigado, Bruno!

    De resto, concordo 100% com você.

    Abração!

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  3. Eu nao bem entendo porque isso acontece nos games! Isso me lembra do manga/anime e game berserk para ps2,onde no mangá/anime existe uma cena(sutil até,se levar em consideração toda a obra)onde uma mulher é estrupada por um demonio humanoide!Então, vendo no youtube a reprodução em cg do jogo o conteudo sexual foi cortado,sobrando a boa e velha ultraviolencia que ja é lugar comum entre os jogos!Não basta apenas colocar conteudo maduro em altas doses,é preciso qualidade e sensibilidade também!

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  4. Foi interessante você citar os quadrinhos, pois isso me lembrou "Crossed", do Garth Ennis, que também trata de um apocalipse zumbi. E o que acontece lá, inclusive com crianças, é de deixar o trailer de Dead Island parecendo um desenho da Disney. E não vi a obra causando nem 1% dessa controvérsia! O que é bem interessante, considerando que as HQs, até algumas décadas atrás, era também um mídia vista como exclusivamente infantil.

    Abraços!

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  5. Há de se considerar, Wasner, que quadrinhos e mangás são mídias mais "fechadas", que não tem tanta repercussão fora dos grupos conhecedores. Como mídia, os quadrinhos falharam em cativar o público em geral e se restringe apenas a apreciadores. Posso estar errado, já que não sou fã de quadrinhos e mangás, mas é esta a impressão que tenho.
    Jogos, no entanto, ainda repercutem muito fora do grupo "gamer". Estes ainda estão lutando por um lugar ao sol no rol das mídias aceitas pelo público em geral, como aconteceu com o cinema.

    Não sei se consegui expressar bem minha opinião. O cérebro recusa-se a funcionar com 100% de aproveitamento ao ter que voltar a trabalhar depois de um bom almoço...

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  6. Mas temos que contextualizar, Bruno! Na época em que as HQs eram consideradas algo exclusivamente infantil, elas não eram um meio fechado. Nos anos 50, por exemplo, crianças e adolescentes americanos consumiam toneladas de Comics, e elas estavam na ordem do dia. Temos que lembrar que as opções de diversão para eles eram consideravelmente mais escassas. Por isso, as HQs eram especialmente visadas e constantemente criticadas pelos religiosos e conservadores de plantão. E os pais preocupados enxergavam os quadrinhos com extremo preconceito e temor. Enfim, uma situação não muito diferente do que é hoje com os games. É dessa época que surgiu o famigerado Comics Code (http://en.wikipedia.org/wiki/Comics_Code_Authority) e o nefando livro "Seduction of the Innocente" (http://en.wikipedia.org/wiki/Seduction_of_the_Innocent). Portanto, as coisas não eram tão diferentes assim não. E tem mais: muitos desses ataques foram iniciados justamente por conta dos quadrinhos de terror e policiais, que eram considerados violentos demais, assustadores, e contra a "ética" e a "moral".

    Enfim, a história se repete. Resta saber se terá o mesmo desfecho feliz.

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  7. Só uma correção: o nome do livro é "Seduction of the Innocent", sem o "e" no final...

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  8. Sim, na década de 50 os quadrinhos tinham muita repercussão fora do "grupo". Como falei, não sou conhecedor de quadrinhos e não sei quando o quadrinho que citou, o Crossed, de Garth Ennis. Apenas assumi que é uma publicação recente e, se estiver certo, meu comentário anterior é válido.

    Caso tenha sido publicado na época em que os quadrinhos estavam na mesma posição dos games hoje, lutando pela aceitação do público em geral com mídias relevantes, concordo plenamente com vc. Agora, duvido muito que uma publicação do tipo teria passado batida na época. É bem possível, mas duvido muito.

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  9. Faço uma correção também: não sei quando o quadrinho foi publicado. A frase acabou ficando incompleta ali no começo.

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  10. Verdade, Bruno, é que eu me expressei mal! :)

    Crossed é um lançamento recente. Nada tem a ver com a década de 50. O que quis dizer é que desde a década de 50 até hoje, os quadrinhos conseguiram sair de uma situação onde eram censurados, policiados, considerados exclusivamente juvenis, onde qualquer transgressão mínima, real ou imaginária, causava o maior celeuma. Passatam a ser uma mídia aceita como universal, tendo segmentos adultos, infantis, juvenis, etc, claramente separados. De modo que um lançamento casca-grossa como Crossed não causa grandes controvérsias. Controvérsias que seriam enormes se, por exemplo, ele fosse lançado há algumas décadas atrás - digamos, nos anos 80. Por exemplo, já nos anos 70, uma história que mostrava o sidekick do Arqueiro Verde drogado - algo mil vezes mais leve que um Crossed - causou controvérsia similar a que hoje Dead Island causa. Isso mudou.

    Você tem razão na sua colocação. Pelo menos no que diz respeito a quadrinhos adultos (como Crossed), realmente se trata de um meio mais fechado, sem tanta divulgação como os games. O que quis realmente dizer é que a naturalidade com que quadrinhos pesadíssimos como esse são publicados é fruto do sucesso dessa mídia em afirmar o seu caráter universal. Hoje existe essa clara separação de públicos, dentro da mesma mídia. Os games precisam chegar lá também.

    Grande abraço!

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  11. É meio complicado, mas eu acho que estamos dando ouvidos demais para essa minoria. Entre esses poucos que reclamaram, eu vi centenas elogiando. Pessoas chatas sempre existem, eu vi um que reclamou que os zombis corriam!! Não se pode levar a sério todo mundo. O trailer até pode não fazer muito sucesso para o público geral, que seria de costume, mas o insucesso entre os games é insignificante.
    Desculpa o comentário atrasado. :)

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  12. Tomara que você esteja certo, LocoRoco... está aí algo que não me importo nem um pouco de estar enganado! ;)

    Abraços!

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  13. José Guilherme,
    Estou falando em meu nome e dos meus amigos, que também compartilham de uma visão bem diferente dos outros adolescentes. Excelente post! Pegamos algumas ideias deste post para um trabalho de filosofia e convencemos a todos que os games não são mais coisas para crianças e adolescentes, mas que também já possuem um público alvo adulto. Seu Blog foi de muita ajuda e nos trouxe momentos, como sempre, de muita diversão e satisfação de saber que não estamos sozinhos. Parabéns pelo excepcional post!

    Abraços,
    Gabriel

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  14. Eu agradeço pela sua gentileza, Roycano. Fico muito feliz por ter ajudado de alguma maneira!

    Grande abraço e apareça sempre!

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