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Mimadinhos, Paladinos da Arte e o Final de Mass Effect 3. Ou: O Falso Dilema do Ano

quinta-feira, março 22, 2012 José Guilherme Wasner Machado 6 Comentários Categoria: , ,


"Minha casa caiu..."

(atenção: NÃO há qualquer spoiler nesse texto)

Retorno, mais uma vez, para comentar o desenrolar dos acontecimentos envolvendo a tal petição para disponibilização de um novo final para Mass Effect 3. Pois bem, a Bioware resolveu atender ao pedido dos reclamantes, e comunicou que oferecerá um final extra e alternativo sob forma de um DLC. Foi o suficiente para detonar de vez um colossal quiprocó no seio da comunidade gamer. A racionalidade que ainda restava - se é que restava alguma - foi, sem trocadilho, para o espaço.

Sejamos francos. O universo gamer sempre foi assim, um eterno Fla-Flu. Pessoas abraçam cegamente causas que, não raramente, não fazem sentido algum. E não porque realmente se importam com elas, mas simplesmente porque desejam aniquilar o grupo rival. Nessas, qualquer consideração a fatos ou lógica acaba subjugada. A recente discussão não foge à regra. De um lado do ringue,  "Mimadinhos" que exigem tudo a seu modo e que encontraram uma empresa disposta a atender aos seus "caprichos". Em troca, claro, do vil metal. Do outro lado, os "Paladinos da Ética Artística", em sua eterna luta contra o capitalismo malvado. Quem vencer leva o troféu "Falso Dilema do Ano". Galvão Bueno, dizem, está escalado para narrar.

(arte: Hellstern | Fonte | via @desgastada)

Se formos observar como tudo isso começou, realmente fica difícil não antipatizar com a causa dos "Mimadinhos" (é, o rótulo colou). Primeiro, porque eles são mesmo. Direito de reclamar é uma coisa; use e abuse à vontade. Ninguém é obrigado a gostar do jogo ou do seu final, nem a ficar calado quanto a isso. Daí a exigir que ele seja modificado ou expandido para acomodar sua visão do mundo, vai grande distância. Ainda mais se essas exigências vierem acompanhadas de grosserias, imaturidade, chantagens e sabotagens. Sejamos justos, todavia. Nem todos os reclamantes estão nesse mesmo balaio. E, de fato, foi uma boa sacada a petição baseada em doações para a caridade. Se o "movimento" tivesse sido exclusivamente assim desde o início, talvez seus anseios fossem vistos agora com mais simpatia e compreensão.

Mas os "Paladinos da Arte" também não se comportaram muito melhor. Dos habituais ataques ad hominem, a argumentos totalmente falaciosos e manipulativos, eles não têm exatamente contribuído para melhorar o nível do debate.

Já vazou uma captura do novo final de Mass Effect 3. Oh, wait...

A primeira apelação dos "Paladinos" é o constante uso da palavra "remoção", como se a Bioware pretendesse substituir o final original por um novo, feito sobre medida para agradar os "Mimadinhos". Essa é uma informação complemente falsa, e eles sabem disso. Mas não se importam em mentir, pois os fins justificam os meios e, afinal de contas, o objetivo real é pisar na jugular do adversário. O novo final, repito, não substituirá o anterior. Será adicional, opcional, sob a forma de DLC e adquirido à parte. Portanto, os discordantes podem simplesmente ignorar o DLC e nada será alterado no seu jogo. Para bem ou para mal.

A segunda apelação dos "Paladinos" é alegar que a mudança é um "desrespeito autoral" e uma "submissão da arte às necessidades comerciais". "Mass Effect 3 = Produto", denunciam eles, com o semblante ultrajado.

Jogos são produtos? Sério que descobriram isso agora?

Só que o mundo não é tão binário como desejam essas pessoas. O mercado de entretenimento - e isso inclui os jogos eletrônicos - envolve um componente de arte, sem dúvida. Mas também um componente comercial. A maior parte da produção (sejam livros, filmes, séries, músicas ou games) possui os dois vetores em maior ou menor medida. Alguns conseguem combiná-los de maneira brilhante, pois eles não são necessariamente incompatíveis. Mas a grande maioria dá preferência mesmo é pro dinheiro. Alguém em sã consciência chamaria de "arte", no sentido lato da palavra, uma série de filmes como "Transformers"? Ou livros como "Crepúsculo", "Código da Vinci" ou "O Segredo"? Quem sabe os funks cariocas, pagodes, axés, e sertanojos, praticamente indistinguíveis entre si? Acho que não.

Transformers: arte? Arrã. Então tá.

A esmagadora maioria dos jogos não é diferente. É pensada como produto. É escrita por comitês, avaliada por marqueteiros e direcionada para agradar à maior parcela possível de consumidores. Não poderia ser diferente. Com os custos crescentes de produção, é isso ou morrer. Muitos dos que hoje criticam os "mimadinhos do final extra" e a "submissão ao dinheiro dos clientes" são, não por coincidência, recém-chegados ao mundo dos RPGs ocidentais. Jogos que só passaram a interessá-los há bem pouco tempo, quando incorporaram mecânicas mais simplistas, ação desenfreada e, em alguns casos, mata-mata multiplayer. Adivinhem qual a razão para isso ter acontecido? Dou três chances. E agora esse povo vem falar em "arte"? Sério? Indignado fico eu por esses "paladinos da arte" nunca terem tocado no assunto antes. Lá no início da crescente homogeneização dos jogos eletrônicos, por exemplo.

Mass Effect 3 é um jogo maravilhoso. Empolgante, divertido e envolvente. Entretenimento de primeira, criado por pessoas muito talentosas. Mas é acima de tudo um produto. Um p-r-o-d-u-t-o. Analogias com a Mona Lisa sendo repintada (sim, eu li isso, acreditem!) são totalmente falaciosas e fora de propósito. Apelação, pura e simples, recorrendo a extremos e absurdos para provar um ponto de vista que já parte de um pressuposto falso. Mass Effect é um produto. Um produto para as massas. Um produto particularmente bom e competente, mas ainda assim produto. Faz todo o sentido, portanto, que a Bioware escute as reclamações e tente também agradar à parcela descontente. E, saliento, sem prejuízo algum para os demais.

"Onde estará Wally, afinal?" "Continue procurando, RP-4301. Disso tudo depende!"

Vale notar, nesse ponto, que algumas das reclamações dos "Mimadinhos" têm lá sua razão de ser, se relevarmos suas grosserias e chantagens infantilóides. Se Mass Effect 3 se pretende um RPG - e, mais ainda, se é marqueteado como um RPG no qual o jogador poderá tomar decisões que impactarão em seu destino - faz todo sentido que diferentes finais ecoem essas decisões. The Witcher 2, com seus dezesseis finais, que o diga. Isso é tão claro que, se a Bioware tivesse incluído o final extra antes do lançamento, estaria sendo aplaudida de pé por oferecer uma maior liberdade de ação ao jogador. A comunidade se derreteria em elogios pelo título oferecer "reais consequências" pelas ações do usuário. Elogios esses que seriam justíssimos, por sinal. Afinal, se trata de um RPG. Não de um filme. Se o tal final extra tivesse sido incluído posteriormente, também sob a forma de DLC, mas sem nenhuma petição atrelada, a companhia estaria sendo criticada pela ganância financeira, mas ninguém estaria falando de desrespeito autoral ou de falta de integridade artística. Como se vê, o timing da Bioware foi péssimo. Mas a incompetência estratégica da empresa não afeta a validade de se oferecer um final adicional para aqueles que o desejam. E que têm todo direito de desejá-lo, por que não?

Por fim, penso que valeria a pena esperar esse final extra ser lançado para só então julgar se realmente ele será um "desrespeito" ao que foi construído anteriormente. Suspeito que não. Assim como os finais alternativos incluídos em blurays de filmes ("A Lenda" é um bom exemplo), provavelmente este não afetará em nada a qualidade dessa grande produção. Muito menos "desconstruirá o universo do jogo", como histericamente alegaram. Provavelmente será apenas uma curiosidade sem maiores consequências. Mas, no momento, já atende aos reais anseios da comunidade: ser uma justificativa e uma cortina de fumaça para mais um Fla-Flu Gamer. E que venham as caneladas.

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6 comentários

  1. ótimo texto, Wasner. você devia escrever com mais frequência, cara. fiquei muito curioso a respeito desse final. o termo "se spoiler" nunca me incomodou tanto. rsrsrs.
    ainda t jogando o 2, e espero que saia uma versão completa com todos os finais. tomara que a bioware não permita que essas ações virem um círculo vicioso.

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  2. Obrigado, Shadow! Aos poucos pretendo voltar a escrever mais pro blog!

    Abração!

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  3. Na verdade bastaria dizer que a comunidade de Mass Effect é o tipo da comunidade onde os membros discutem a quimica do suor de Tali! Só isso ja bastaria pra saber o nivel de demencia deles!


    Agora se basta ter finais extras para ser considerado um RPG então Street of Rage Remake é o melhor RPG que eu já joguei! O numero de escolhas que o jogador pode fazer,atrelado as suas devidas consequencias(mais loot,inimigos variados,stages mais faceis ou mais dificeis,etc...)são de excelente qualidade!

    Agora vc falou,falou e não deu a sua opinião sobre o final ou qualquer outra coisa que tenha lhe agradado/desagradado!

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  4. Agora uma coisa que eu tenho que admitir é que eu me diverti mais lendo o Butthurt/shitstorm da Bioware/ME3 do que jogando a serie! Infinite lulz

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  5. Breno, eu tinha intenção de depois escrever um post específico sobre o que achei do final.

    Adiantando, também não gostei do final. Achei pretensioso, mal escrito, mal implementado, pessimamente animado (o que destrói a credibilidade e até gera um efeito cômico), é incoerente com o restante da série, cheio de furos, recorre a recursos de narrativa risíveis ("deus ex machina", por exemplo) para mover a história adiante, não leva em conta as decisões do jogador para muito além de um valor numérico cumulativo, implementa finais diferentes quase que cosméticos e ativados na base do "clique na tecla A, B ou C", é chato pra caralho de se levar adiante, modifica drasticamente a jogabilidade, ignora solenemente pontos do próprio canon da série, e por aí vai.

    Como disse no meu review de ME1, considero os jogos da série mais como shooters com toques de RPG, e não como RPGs de verdade. Mas o fato é que as fronteiras entre os gêneros tem ficado cada dia mais indefinidas...

    Abraços!

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  6. Acredito que os generos são tão faceis de se definir como eles eram antigamente! O que acontece é que os jogos AAA de hoje tem essa tendencia Frankestein de incorporar diversos generos em um jogo só,o que para mim acaba gerando um efeito de jogo aguado! Pegue Mass Effect por exemplo: Nele temos minigames(o minigame de hacking do primeiro Mass Effect é um clone do frogger,por exemplo),temos um shotter para agradar jogadores de FPS-TPS, temos elementos de adventure(falar com NPCs,resolver quests),elementos de RPG(no caso Action Rpg,pois nenhuma produtora AAA se arriscaria com combate em turnos),elementos de Dating Sim(pessimamente implementados,diga-se de passagem),obsessão com cinematic,etc,etc.

    Tudo isso implementado poderia dar um bom resultado,mas para mim essas caracteristicas teriam que ser complexas(essa palavra bota medo em muita gente) e bem implementadas,o que eu não acredito que seja o caso! Jogar a serie ME entretem,mas infelizmente eu acho uma experiencia esquecivel e truncada. Uma hora eu estou atirando em inimigos em corredores virtuais,outra hora eu estou jogando frogger ou caça aos pixeis e por ai vai!

    Por fim Eu gostei na epoca pelo next-gen feel,mas tirando essa carapuça grafica e tendo mais experiencia em jogos tanto atuais quanto jogos antigos,eu foi colocando ME bem mais abaixo da minha categoria de jogos favoritos.

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