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Mass Effect 3: Uma Resenha

terça-feira, maio 08, 2012 José Guilherme Wasner Machado 2 Comentários Categoria: , , ,


(atenção: essa resenha NÃO contém spoilers)

Com Mass Effect 3, a saga de Shepard e dos Reapers chega ao fim. É uma despedida triste. Não pelo controverso final (mais sobre isso adiante), mas simplesmente porque não tornaremos a encontrar aqueles personagens a que tanto nos apegamos. Mesmo com todos os problemas, os títulos da Bioware sempre tiveram sucesso em estabelecer um forte vínculo emocional com o jogador, e isso se deve muito aos seus protagonistas. Aqui não é diferente. Tali, Liara, Garrus, Miranda, Joker, tantos outros... vimos esses NPCs passarem de meros anônimos virtuais a companheiros cuja sorte nos interessa de perto.


Esse apego, desenvolvido com habilidade ao longo dos jogos anteriores, é explorado de forma competente no capítulo final. Enfrentaremos dilemas dificílimos que, não raramente, são de cortar o coração. Trairemos um velho amigo, de forma vil, para conseguir o apoio de que tanto precisamos? Deixaremos outros morrerem, pelo bem maior da galáxia? Que espécie terá que desaparecer para que outras sobrevivam? Nem sempre as opções disponíveis serão aquelas que desejamos. Muitos caminhos estarão fechados por conta de escolhas anteriores. Escolhas que não foram necessariamente erradas. Certas ou erradas, o passado sempre estará presente, nos assombrando. Não serão poucos os jogadores que desejarão reprisar os dois primeiros títulos, na tentativa de obter soluções ideais para o fechamento da história. Ao fazerem isso, talvez percam o ponto central da série. Em Mass Effect, as decisões têm desdobramentos, e nem sempre para melhor. Tentar manipular o jogo para simplesmente obter o melhor resultado possível é desprezar o que ele tem de mais relevante.


Justamente por isso, é decepcionante chegar ao final e ver que, no clímax da história, nossas decisões passadas pouco influem na conclusão. Claro, dependendo do esforço de guerra mobilizado, poderemos ter um maior ou menor número de opções para concluir o jogo. Mas essas opções não são fundamentalmente diferentes, de um ponto de vista narrativo. E nos são oferecidas de forma pedestre. O jogador opta pelo final desejado, entre os possíveis, simplesmente escolhendo uma determinada passarela no cenário derradeiro. Basicamente, algo semelhante ao "Pressione a tecla A, B ou C" da conclusão de Deus Ex: Human Revolution. Patético. Daí somos apresentados a uma sequência pré-renderizada que pouco tem a ver com o contexto do jogador ou o seu histórico. Embora as consequências lógicas sejam drasticamente diferentes para cada uma das opções, o resultado são cutscenes tão semelhantes entre si que é necessário diferenciá-las com o uso de cores. Cores! São Finais para Dummies! Pelo visto, o orçamento do jogo já estava estourado a essa altura e a Bioware resolveu que era hora de dar uma economizada. Sim, no ápice da sua série premium.

"O final de Mass Effect 3? E eu que pensava que nada era pior do que Nêmesis..."

Toda a sequência final passa uma sensação de pressa, economia e comodismo. As animações são toscas, o que destrói completamente nosso envolvimento emocional. Alguns momentos são tão constrangedores que chegam a provocar um efeito cômico, e não dramático. E com quem Shepard divide esse clímax, essa culminação de todos os seus esforços e sacrifícios? Com seu interesse amoroso? Com algum membro valoroso e fiel da equipe, com quem compartilhou tantas batalhas e momentos difíceis? Não. Com um personagem totalmente secundário, que pouquíssimas vezes deu as caras, e com quem o jogador não tem realmente nenhum vínculo afetivo. Imaginem o final de O Senhor dos Anéis, na Montanha da Perdição, onde Frodo divide a sequência não com Sam (de repente desaparecido), mas com o velho Cervejeiro Carrapiço, surgido magicamente de trás de alguma pedra.


Por que a desenvolvedora tomou uma decisão idiota dessas, que vai contra todo o seu retrospecto na série? Simples. Dessa forma, ela não é obrigada a gravar vários diálogos, muitos deles idênticos, com diferentes NPCs. Não é obrigada a levar em consideração os diversos desdobramentos das decisões do jogador. Tampouco precisa se preocupar com quem ainda está vivo e com quem está morto. Não precisa gerar um script complexo, ou vários custscenes alternativos, com diferentes protagonistas. Simplesmente saca da manga um coringa qualquer, que ela tem certeza que estará obrigatoriamente lá, e que pode ser justificado por possuir uma relevância mínima com o personagem principal. Daí fica tudo mais simples, direto, fácil de escrever e, sobretudo, barato. Ainda que não faça muito sentido. Se Frodo, num momento crucial, fosse relembrar com carinho quem é importante para ele, será que pensaria no velho Carrapiço? Acho difícil.

 Conselho de amigo: chegando aqui, pare e finja que o jogo terminou. Será melhor para todos.

Tudo isso seria tolerável se o fechamento da história fosse bom. O problema é que não é. É ruim. É insatisfatório. É tolo. É pretensioso. É incoerente com o tom do restante da série. É Deus Ex Machina, esse recurso tão covarde, e tão precioso ao roteirista incompetente. Personagens simplesmente surgem do nada, ou aparecem em lugares improváveis. Os furos de lógica abundam. O próprio cânon estabelecido pela série é desrespeitado. E muito mais. O resultado é tão frouxo, mas tão frouxo, que provocou o surgimento de inúmeras "explicações" mirabolantes pela internet. Todas tentando descobrir um significado oculto naquela mistura indigesta.


Dessas explicações delirantes, a minha predileta é essa aqui. Se o leitor já tiver terminado o jogo, ou não se preocupar com spoilers, vale demais a pena ler. Sério, não estou sendo sarcástico. É uma explicação inteligente e muito bem argumentada. Dá o que pensar. Pena que os roteiristas de Mass Effect 3 não sejam tão brilhantes como o autor. Não, por mais que este queira, a razão por trás do polêmico final é muito mais simples e prosaica: pura incompetência. Se a Bioware tivesse tamanha fé na inteligência do seu público-alvo, como devemos concluir pelo artigo do sujeito, os seus RPGs não estariam passando por um processo tão evidente de simplificação. Compare, por exemplo, a profundidade e a complexidade de um Baldur's Gate com a de um Dragon Age 2. Ou mesmo com o próprio Mass Effect. Não, a Bioware não está mirando o público de "2001", de Kubrick. E sim o de "Star Trek", de J.J.Abrams. E, na atual toada, logo será o público de "Transformers", de Michael Bay.


Se achei o final uma grande porcaria, significa que eu também assinaria a petição para a sua mudança? Não. Acho que o final deve ser mantido como está. Um monumento à incapacidade dos roteiristas, e um lembrete de que a ambição pode ser algo muito bom, mas sem contar com um talento à altura, resulta apenas em pretensão. Mas a pergunta que realmente interessa é: esse frangão da Bioware, já nos acréscimos do segundo tempo, destroem a experiência de Mass Effect 3? A resposta é não. Releve os dez minutos finais e terá um jogo tão bom quanto os dois primeiros. Mass Effect 3 é um título que merece ser jogado. Ponto. Dito isso, prossigamos.


O primeiro Mass Effect era, nominalmente, um RPG/Shooter. Como tal, era bastante insatisfatório, com uma jogabilidade truncada que não sabia exatamente para que lado ia. A partir do segundo título, a série resolveu se assumir definitivamente como um shooter. Os elementos de RPG não desapareceram, mas foram para segundo plano, sendo integrados de forma mais orgânica a uma mecânica que privilegiava a ação. Por mais que nós, fãs de RPGs, lamentemos, o fato é que foi uma decisão acertada. Os combates de Mass Effect 2 são simplesmente mais divertidos e intuitivos que no primeiro jogo.


O derradeiro capítulo refina essa jogabilidade shooter. Os campos de batalha não se parecem mais com "quadras de tênis". Não dá mais para ficar escondido indefinidamente atrás de uma barreira, e atirar de tempos em tempos contra os caras "do lado de lá" do cenário. Os inimigos agora atacam de todas as direções (inclusive acima e abaixo do plano do jogador), e procuram chegar até ele usando diferentes estratégias. É preciso se mover o tempo todo, constantemente pausar a ação para analisar o campo de batalha e seu posicionamento, escolher o equipamento mais adequado a cada situação, priorizar adversários, empregar táticas diferentes para os diversos tipos de inimigos e usar a capacidade dos seus aliados da melhor forma possível. E quando a briga ficar íntima e pessoal, distribuir estocadas a rodo com seu novíssimo punhal omni-tool. Morri mais vezes em Mass Effect 3 do que nos dois títulos anteriores somados. Esse maior desafio é muito bem vindo, e jamais se transforma em frustração. Ainda mais agora que temos à disposição uma maior variedade de armas, armaduras e equipamentos. É algo que fez muita falta em Mass Effect 2 e que acrescenta uma camada tática adicional aos combates.


Graficamente, o jogo apresenta poucos avanços, e já começa a demonstrar a idade da sua engine. As animações estão datadas e certas texturas são tão pixeladas que chegam a distrair a atenção. Os "diálogos cinematográficos" já não impressionam tanto quanto no início, mas não deixam de ser eficientes. Em uma cena, resolvi confessar a um antigo interesse amoroso que a fila tinha andado. A expressão de tristeza da moça foi tão absolutamente convincente, que não teve jeito. Recarreguei o savegame anterior e mudei de decisão. Milhares de inimigos mortos não impediram meu Shepard de ter um coração mole.

Há muito mais a se comentar sobre Mass Effect 3, mas acho que já abusei demais da paciência do leitor. De qualquer modo, estaria apenas repetindo o que outras reviews já disseram sobre o jogo, e com mais competência do que eu.


Não sei que rumos a Bioware dará à franquia daqui para frente. Espero que não a transforme num FPS ou em um MMO. Espero que não mude o foco para multiplayer ou co-op. Espero que mantenha intacto o componente RPG, que tanto enriquece a jogabilidade desse shooter mal disfarçado. Espero, portanto, que a empresa tenha a sabedoria de preservar a fórmula vencedora da série, sem cair na tentação de expandir ainda mais o seu mercado. Que ela não desfigure Mass Effect, como desastrosamente fez com Dragon Age. Se, todavia, as minhas esperanças se revelarem vãs, sempre teremos os três jogos originais para reviver seus bons momentos. Falando nisso, chegou até mim a notícia de que um certo dispositivo prothean foi descoberto em Eden Prime. Talvez seja melhor eu investigar esse intrigante acontecimento. Portanto, vou nessa, pessoal. Mas talvez a gente ainda se encontre por aí, entre as estrelas.

PS: fiquei com preguiça de capturar imagens no jogo, de modo que retirei os screenshots acima do site da Bioware.

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2 comentários

  1. "Falando nisso, chegou até mim a notícia de que um certo dispositivo prothean foi descoberto em Eden Prime".

    Tas falando do DLC do primeiro dia?

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  2. Não! E sim com relação ao início da trama no primeiro Mass Effect, indicando minha disposição para um novo replay! ;)

    Abraços!

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