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Baldur's Gate: Enhanced Edition para Ipad - Uma Análise (Parte 1)

segunda-feira, maio 27, 2013 José Guilherme Wasner Machado 3 Comentários Categoria: , , , , , , ,


Como vocês que acompanham este blog sabem - se é que sobrou alguém depois de tanto tempo de inatividade - há muito sonho com a chance de ver RPGs old school em dispositivos do tipo tablet. Por isso, quando soube que uma das minhas séries preferidas, Baldur's Gate, receberia uma recauchutada e seria adaptada para o iPad, não poderia ficar mais feliz (uma versão para tablets Android também está em andamento, mas ainda não foi lançada). Mas, no final das contas, essa nova versão ficou à altura das expectativas? E como foi retornar a Baldur's Gate quase quinze anos após o seu lançamento? Terá o jogo envelhecido bem?

Veremos.

(obs: as imagens deste post foram capturadas diretamente do port de Baldur's Gate Enhanced Edition para iPad e redimensionadas de 2048 x 1536 para 1600 x 1200 pixels)


Uma rápida introdução à série

Baldur's Gate (não confundir com o fraco homônimo para PS2 e Xbox) foi o jogo que trouxe fama à Bioware, catapultando-a de ilustre desconhecida a uma potência no mundo dos RPGs eletrônicos. O primeiro jogo logo conquistou um grande número de fãs  e recebeu boas críticas da imprensa especializada. Não demorou muito para a Bioware lançar uma  continuação, muito superior em todos os aspectos: Baldur's Gate 2, até hoje uma presença quase constante nas listas de melhores CRPGs de todos os tempos. Esta reputação não é acidental. Baldur's Gate 2 apresentou (ou reforçou) muitas das qualidades que hoje associamos aos RPGs da Bioware. Em especial, o ênfase na história e na construção de personagens marcantes que, pouco a pouco, vão estabelecendo um forte elo emocional com o jogador. Para alcançar esse objetivo, a desenvolvedora investiu na interação entre os membros da sua equipe, incluindo até a possibilidade de iniciar um romance. As missões pessoais dos seus companheiros também se tornaram mais complexas e interessantes, muitas vezes trazendo novos fatos sobre eles. Até as imagens ("retratos") dos personagens sofreram alterações, para indicar a dura jornada pela qual passaram. É fascinante ver  aquela amiga alegre e imatura do primeiro jogo se tornar uma adulta de ar melancólico e cicatrizes pelo rosto. Ao final, você sente que não está mais lidando com avatares minúsculos e indiferentes, mas com seres de carne e osso. São seus amigos, não apenas NPCs genéricos. Não é incomum encontrar relatos de pessoas que debulharam lágrimas ao se despedir dos seus velhos companheiros de batalha, após centenas de horas de convivência com eles.


A série Baldur's Gate é baseada no sistema de RPG Advanced Dungeons & Dragons (AD&D), segunda edição. Dela empresta não apenas o popular universo Forgotten Realms ("Reinos Esquecidos"), mas também o complexo sistema de combate, estatísticas e levelling. O motor gráfico e de regras que dá vida ao jogo, conhecido como "Infinity Engine", é considerado a mais bem-sucedida adaptação de AD&D para meios eletrônicos. Ele seria utilizado depois em vários outros títulos, como o cult Planescape: Torment e a série de ação Icewind Dale.

Uma das características da Infinity Engine é a visualização isométrica do cenário e dos personagens, de cima para baixo. Isso permite o fácil gerenciamento da equipe, que pode contar com até seis membros - bem mais do que a maioria os RPGs atuais. Os cenários em si são imensas imagens pré-renderizadas, com algumas partes possuindo animações sobrepostas - rios, cachoeiras, etc. O jogo é dividido em uma série de áreas isoladas, cada uma possuindo sua própria imagem rasterizada, e são amplas o suficiente para passar uma boa sensação de liberdade.

Uma das várias áreas do jogo

O jogo começa com poucas áreas disponíveis, e novos destinos são abertos à medida que o jogador atravessa as regiões existentes. Outras áreas só aparecem quando a história alcança certos pontos-chave da trama. Desta maneira é obtido um bom meio termo entre as filosofias de "mundo aberto" e "sequencial", com vantagens das duas escolas. Essa é uma filosofia que a Bioware emprega até hoje. Mas, em seus jogos mais recentes, os cenários se tornaram tão pequenos e linearizados que perderam essa sensação de liberdade e de mundo aberto. Uma pena.

Combates

AD&D não é nem de longe o sistema de RPG mais complicado já produzido, mas talvez seja meio hermético para uma nova geração mais acostumada a produções como Mass Effect e Elder Scrolls. O que dizer de um sistema onde, por exemplo, quanto mais baixo o número que representa a proteção de uma armadura, melhor ela é? A curva de aprendizado de Baldur's Gate é brutal para os padrões atuais, e por isso é essencial ler o (imenso) manual do jogo. Não que a Bioware não tenha se esforçado para tornar mais digerível a complexidade do AD&D. Hoje podemos achar a interface do jogo um tanto tosca, mas para a época ela foi considerada bem elegante e eficiente, ainda mais levando em conta a enorme gama de opções que está disponível para o jogador, a todo momento.

Baldur's Gate apresenta um belo ciclo de dia e noite.

Um fator que certamente ajudou a aceitação do público foi o "combate por turnos em tempo real", introduzido pela desenvolvedora. Sendo baseado em AD&D, o combate em Baldur's Gate ocorre por turnos. Mas, ao contrário de outros jogos do gênero, onde a ação é paralisada automaticamente a cada turno, para que o jogador tome decisões e distribua ordens, aqui ela pode ocorrer sem interrupções. Cabe ao usuário a iniciativa de pausar o combate e dar novas instruções, se julgar necessário. Enquanto isso não ocorre, os personagens seguem repetidamente a última ordem dada. Se em determinado turno for impossível prosseguir na ação especificada, o personagem toma decisões por si mesmo, de acordo com o script atribuído a ele. Há vários scripts de comportamento que podem ser associados aos personagens, alguns mais agressivos, outros mais defensivos. Eles podem orientar, por exemplo, que um personagem mais frágil fisicamente, como magos e ladinos, se distancie do inimigo e use armas de longa distância, protegendo sua integridade física.

Nas disputas mais difíceis, pode ser necessário pausar o combate com tanta frequência que ele praticamente se torna um RPG convencional por turnos. Se o jogador desejar, pode ativar gatilhos condicionais que pausam a ação automaticamente, caso certas condições sejam atingidas. Como se pode ver, é um sistema inteligente e altamente adaptável, capaz de agradar tanto aos novos ("novos" em 1998, claro) fãs de ação em tempo real, quanto aos mais tradicionais, apegados a combates por turnos, mais estratégicos. O sistema deu tão certo que é usado até hoje, com adaptações em maior ou menor escala, em todos os títulos da Bioware.

À direita, aparecem os membros da sua equipe

Se a curva de aprendizagem de Baldur's Gate não é das mais fáceis, pelo menos sua complexidade é introduzida de uma forma gradual. Quando o jogo se inicia, você é um humilde zé-ninguém e suas habilidades são extremamente limitadas. A morte espreita em cada esquina. Fugas desesperadas e recarregamentos serão rotina. Arrumar aliados e compor uma boa equipe é essencial para sobreviver. Mas, no início do jogo, você estará praticamente por conta própria. Os companheiros que poderão ajudá-lo em suas batalhas só irão aparecer aos poucos, e a princípio serão tão ineptos quanto você. Os equipamentos obtidos nas primeiras horas também não serão de grande ajuda.  E se num RPG atual é comum o jogador subir de nível a cada 15 minutos, em Baldur's Gate podem-se passar várias horas antes que a primeira mudança de nível aconteça. É vital um cuidadoso gerenciamento dos poucos recursos à sua disposição, durante as primeiras fases da história. Essa dificuldade inicial pode alienar facilmente os jogadores mais novos, mas será uma pena se eles desistirem prematuramente por isso. A evolução do seu personagem, de um zé das couves a um semideus, ao final da série (você importa seu personagem e prossegue com ele no segundo jogo), é demorada, mas gratificante. Você realmente sente que está se tornando um badass, mas isso não vem de bandeja. É preciso se esforçar para chegar lá.

A história principal do primeiro jogo é interessante. Mas não as quests secundárias.

Muito mais poderia ser dito sobre a série. Tanto que nunca me atrevi a escrever uma resenha sobre ela. Simplesmente considero tal tarefa acima das minhas forças. Jamais conseguiria abordar com justiça todos os detalhes relevantes de algo tão complexo e de escopo tão grande. Por isso, essa série de artigos não tem pretensão de compor uma resenha. Resumidamente, digo que a fama da série se deve principalmente ao segundo jogo, muito mais sofisticado e refinado. O primeiro é uma produção irregular, ainda tateando à procura da fórmula certa. Com vários problemas, em muitos aspectos superficial, mas, ainda assim, bem divertido para aqueles que têm paciência e não se importam com um ritmo lento de construção do seu personagem. Pessoas que gostam de voar por um jogo em poucas horas e logo passar para o próximo vão se frustrar com Baldur's Gate. Melhor nem tentar.

Na segunda parte, veremos como ficou o port para iPad. Até lá.

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3 comentários

  1. Muito esperada essa análise. Que venha a parte 2!

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  2. Um ponto a se destacar é como foi incrível para quem jogava o RPG tradicional de mesa ver o jogo transportado de forma tão fiel para a tela do PC. Realmente foi genial a adaptação.

    Guilherme, convém citar que a versão Android vem por aí no seu artigo.

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  3. Valeu! Vou ver se coloco uma observação a respeito depois!

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