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RPGs da Bethesda: Guia de Uso

sexta-feira, abril 11, 2014 José Guilherme Wasner Machado 6 Comentários Categoria: , , ,


Meu primeiro contato com um RPG da Bethesda foi com Morrowind. Um jogo que eu adoro, mas que, infelizmente, ainda é desconhecido ou obscuro para a maioria. Entende-se. Morrowind foi o último RPG de nicho da desenvolvedora. A partir daí, ela empreendeu uma mudança de estratégia, procurando tornar seus produtos menos herméticos e mais acessíveis ao público “comum”. Uma decisão que vem alcançando um grau considerável de sucesso, a julgar pelos lucros crescentes e uma base de fãs que não pára de aumentar.

Apesar disso, percebo que muitos usuários ainda não aprenderam como tirar o melhor dos títulos da empresa. Tentam jogá-los como fariam com um Final Fantasy ou um Mass Effect, o que é receita certa para frustração. Mesmo com todos os defeitos que - admitamos - abundam nos RPGs da Bethesda, há (literalmente) centenas de horas de diversão de primeira para aqueles que sabem abordá-los da forma correta. Seguem, portanto, as dicas para extrair o máximo que esses jogos têm a oferecer, na minha opinião.


A quest principal é só um detalhe

O erro mais comum que vejo os novatos (em termos de jogos da Bethesda) cometerem é o de se atirarem frenética e exclusivamente à missão principal do jogo. Logo a completam e ficam coçando a cabeça tentando entender  como algo apenas mediano, na melhor das hipóteses, pode ter causado tanto falatório na imprensa especializada.

Nos RPGs da Bethesda, a missão principal não corresponde sequer a 10% do conteúdo do jogo. E tampouco é o que ele tem de melhor a oferecer. Há inúmeras missões paralelas, e muitas delas são até mais interessantes e divertidas do que a quest principal. Inclusive, é bem comum encontrarmos veteranos que gastam centenas de horas num determinado título sem jamais completarem (ou mesmo iniciarem) a quest principal. E estão muito felizes e satisfeitos assim.

Este é um jogo de exploração

O ponto forte dos RPGs da Bethesda não é a história, os personagens, ou missões particularmente engenhosas ou complexas. Seus jogos se destacam na composição de um mundo aberto cheio de possibilidades e beleza. É onde 90% da diversão se encontra. O bacana, aqui, é a liberdade de sair vagando pelo mundo, de ir aonde quiser, de explorar os caminhos e alternativas que se abrem diante de você. Pegar uma estrada sem saber onde ela vai terminar. Descobrir segredos e lugares. Se você não tem perfil exploratório, não vai achar tanta graça nesses jogos.

Fica a dica: em vez de usar preguiçosamente o recurso “Fast Travel” para chegar instantaneamente ao seu objetivo, pegue uma estrada e vá a pé por todo o trajeto. Aproveite o passeio. E se no meio do caminho encontrar uma trilha interessante que parece levar a um destino completamente diverso... largue tudo e vá descobrir onde isto vai dar.

Sigo meu caminho ou exploro aonde vai dar aquela escadaria?

Não é necessário explorar CADA caverna.

Um dos males dos títulos da Bethesda é o excesso de “dungeons” - cavernas, ruínas e fortalezas em Elder Scrolls, edificações e túneis de metrô em Fallout. Esses “dungeons” acabam se tornando repetitivos e podem até mesmo fazer o usuário desistir do jogo de vez, por cansaço.

Muitos desses dungeons têm surpresas especiais esperando pelo jogador de perfil mais explorador, mas é preferível perder algumas delas a ficar esgotado prematuramente. E isso IRÁ acontecer inevitavelmente com aqueles que tentarem explorar de modo metódico cada um desses locais. E, acredite, NÃO vão conseguir fazê-lo, de qualquer maneira. É receita certa para frustração.

Minha dica é: não vá para o outro extremo, de fazer da atividade de exploração uma completa obsessão. Se não está com saco de entrar em mais uma caverna, não o faça. Se dedique a outras atividades. Dê preferência aos dungeons que estão atrelados obrigatoriamente a alguma missão mais interessante que você já está cumprindo, ou sobre o qual você recebeu uma pista saborosa. Aqueles que eventualmente aparecerem no seu caminho, explore apenas se estiver com MUITA vontade ou se o lugar tiver uma aparência particularmente promissora. Regra: não exagere.


Interprete seu personagem (1)

Penso que muitas vezes os jogadores se esquecem o que realmente representa a sigla “RPG”. Ou seja, um Jogo de Interpretação de Personagem (ou de papéis). Uma das coisas interessantes dos RPGs da Bethesda é que eles não te forçam a interpretar um personagem. Em vez disso, eles te dão liberdade de interpretá-lo. E, infelizmente, a maior parte das pessoas não entende isso. Se não são forçadas a algo, elas simplesmente não o fazem.

O princípio aqui deveria ser o mesmo que guiava os RPGs de mesa: imaginar um personagem e agir de acordo com o que ele faria. Você imaginou seu personagem como um ladrão? Então desenvolva esse personagem como um ladrão, não como um pau-para-toda-obra. Invista nas habilidades típicas dessa “profissão” - stealth, lockpick, arco e flecha, armaduras leves etc. Ignore as missões, as habilidades e os artefatos mais adequados para magos ou guerreiros. Deixe para explorar essas outras possibilidades em partidas específicas para essas carreiras. Você não tem que jogar todo o conteúdo do jogo de uma única tacada. Os mundos construídos pela desenvolvedora foram bolados para serem grandes o suficiente para permitir múltiplas partidas sem grandes repetições de missões ou lugares... desde que você procure se limitar ao seu papel. Partidas mais curtas e contidas também representarão menos repetições de mecânicas de jogo. Uma carreira diferente pode trazer toda uma nova forma de abordar os obstáculos e os adversários.

"Uma história? Ok. Já ouviu falar de Jason, garotinha...?"

Interprete seu personagem (2)

AJA como um habitante real daquele mundo. Descobriu um recôndito particularmente bonito? Tire um tempo para descansar a admirar a paisagem. Veja o entardecer, escute o barulho do vento e dos animais. Andou o dia inteiro e a noite está caindo? Procure um bom lugar para dormir, a viagem pode prosseguir amanhã. Afinal, seu personagem não é uma máquina. Ele deve estar cansado, depois de caminhar por horas. Encontre um lugar gostoso, aconchegante e quentinho onde possa esticar as pernas, ainda mais se estiver chovendo. Leia um livro. Sente numa praça e escute um pouco das conversas dos transeuntes. Compre uma casa e a decore. Ela é seu lar. Visite-a de tempos em tempos, e não apenas para usá-la como depósito genérico de quinquilharias.

Se você acha difícil “perder tempo” voluntariamente com essas coisas porque elas não são obrigatórias e nenhuma recompensa oferecem em termos de pontos ou vantagens, pode ainda considerar a possibilidade de instalar uma série de MODs que obrigam o personagem a se alimentar e descansar periodicamente, além de implementar várias outras tarefas diárias que aumentam a imersão e o realismo. Que tal, por exemplo, montar acampamento, cortar lenha, acender uma fogueira e aproveitar para pensar na vida, curtindo o contato com a natureza?

Ah, você não gosta disso? Quer salvar o mundo sem “perder tempo com ninharias supérfluas” e já passar para o próximo jogo? Faz mais sentido então investir seu dinheiro em Call of Duty ou God of War.

Isso não é trabalho, é diversão

Você não precisa cumprir cotas, cronogramas ou deadlines. Não tenha pressa ou se sinta obrigado a cumprir missões que considera chatas. Dê um tempo. Vá fazer outra coisa. Retome mais tarde. Ou mesmo nunca.

Ah, mas o NPC disse que isso é URGENTE”. Não se preocupe, não há limite de tempo para nenhuma missão. O fator RPG é importante, mas a sua diversão é mais.

Aumente o seletor de dificuldade

A partir de Oblivion, a dificuldade padrão dos jogos da Bethesda foi “tunada” para deixar felizes aqueles velhinhos das propagandas de Wiimote. Exceto talvez pela primeira hora de jogo, não há praticamente nenhum desafio nesse nível de dificuldade. O tédio logo se instalará. Vale a pena você subir o seletor de dificuldade para pelo menos um nível acima do default. E, mais tarde, quando seu personagem estiver muito poderoso, talvez valha subir um nível além.


Não tenha pressa de obter poder.

Há jogadores que fazem de tudo para obter o máximo de poder, no menor tempo possível. Cada oportunidade perdida de maximizar seu personagem é encarada como uma derrota. Chegam mesmo a fazer estudos sobre como usar as mecânicas do jogo para expremer o máximo possível de pontos por situação. Vá entender.

Nesse aspecto, os jogos da Bethesda oferecem brechas que podem ser exploradas pelos malandros para subir de nível de forma meteórica e artificial. Por exemplo, pegue um escudo, deixe um ratinho ficar te atacando seguidamente, e sua habilidade de bloqueio irá subir sem parar. Em duas horas, você já será um expert nessa habilidade.

Se você também usa esses truques, pode até se considerar muito esperto e inteligente, por passar o jogo “para trás”. Mas na verdade está passando você mesmo para trás. Está apenas arruinando sua diversão, pela qual pagou caro, lembra-se? A partir do momento em que você é poderoso demais, e qualquer adversário é derrotado em segundos com um ou dois golpes, qual a graça? Qual o desafio?

Fato é: os jogos mais recentes da Bethesda são demasiadamente fáceis. Querem, claro, agradar a toda uma geração de mimados que cresceu despreparada para lidar com frustrações. A subida de poder do personagem já é exagerada, pelas próprias regras estabelecidas. Não há motivos para apressar isso ainda mais. Aliás, se o jogador puder instalar alguns MODs que diminuam a velocidade de progressão, acabará aproveitando muito melhor o seu investimento, pois o jogo será bem mais desafiador e recompensador.

Faça as quests da Dark Brotherhood, o mais cedo possível.

Na série Elder Scrolls, as missões da Dark Brotherhood estão sempre entre as mais divertidas. Não deixe de fazê-las. De preferência enquanto o seu personagem não é todo-poderoso. Qual a graça de assassinar o imperador se as suas habilidades são tão fodásticas que não sobra praticamente nenhum risco ou dificuldade?

Com MODs, tudo fica mais bonito.

MODs, MODs, MODs

É inegável que os jogos da Bethesda têm muitos problemas e defeitos. Não é apenas falta de cuidado. RPGs de mundo aberto estão entre os títulos mais difíceis e dispendiosos de serem desenvolvidos, e existem limites logísticos, econômicos, contratuais, temporais e, vale lembrar, humanos, que precisam ser respeitados.

Qual a solução? Ora, coloque a comunidade para corrigir os problemas do jogo ou melhorar aquilo em que ele é deficiente, através de MODificações feitas por ela própria. Alguns enxergam isso como uma atitude cínica e até pilantra. Eu prefiro ver como realista.

Independente da opinião de cada um, o fato é que essa abertura vem rendendo frutos incríveis nos últimos anos. Já vai longe a época em que “MOD” era sinônimo de cheats descarados ou de toscas texturas amadoras de nudez. Os MODs estão cada vez mais profissionais, variados e surpreendentes. Não raro, deixam o trabalho da desenvolvedora no chinelo.

O Workshop do Steam instala os MODs para você. Moleza.

A possibilidade de usar MODs é uma das principais vantagens que os jogadores de PC possuem sobre as outras plataformas. É uma vantagem gigantesca. Se você nunca jogou um título da Bethesda “corrigido/aprimorado” por alguns dos melhores MODs desenvolvidos pela comunidade, não sabe o que está perdendo. MESMO. É outro patamar de experiência.

Ah, mas é difícil de instalar, configurar, mimimi”. Não, meu caro. Não mais. Hoje em dia o processo é quase todo automatizado, com poucas exceções. O Nexus, o principal site de hospedagem de MODs, possui um instalador genérico de modificações que é absolutamente genial. Ele faz todo o trabalho para você. E se não gostar do resultado de um MOD específico, ele faz a desinstalação sem nenhum problema, em segundos. No Steam, a coisa é ainda mais fácil: selecione um MOD, “inscreva-se” nele, e o serviço da Valve se encarrega de baixar e instalar a modificação. Também faz sua atualização periódica, à medida que o autor disponibilizar novas versões. Por último, alguns dos MODs mais complexos inserem menus específicos dentro da própria interface do jogo, possibilitando ao usuário customizá-los facilmente de acordo com seus gostos pessoais. É mamão com açúcar, até a vovó do Wiimote daria conta.

Você pode configurar alguns MODs dentro do próprio jogo, on the fly.

Poder ajustar o jogo à sua preferência pessoal, torná-lo (muito) mais bonito, mais complexo, mais abrangente, acrescentar novas missões, personagens, lugares, sons, NPCs, criaturas, aprimorar a interface e a jogabilidade, ajustar mecânicas ao seu gosto pessoal, consertar bugs... tudo isso  de forma fácil, gratuita e com total apoio da própria desenvolvedora, que nunca (que eu me lembre) tentou censurar ou proibir mesmo as modificações mais controversas... bem, dá para perdoar alguns pecados, não?

E você, quais são as suas dicas?

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6 comentários

  1. Sensacional!!
    Traduziu em um só texto como os jogos da Bethesda foram feitos para se jogar!
    Achei que cê nao ia mais postar, tava até triste
    :p
    Queria sugerir, caso vc conheça, obvio, textos sobre os rpgs da finada Troika, que são sensacionais(arcanum: of steamworks and magic obscura, entre outros)
    Ou até mesmo os primeiros Fallouts!
    Quem sabe outros jogos da infinity engine(IceWind Dale, Baldur's Gate 2, já que do 1 vc já fez textos excelentes!!)
    Ou até mesmo sobre os The Elder Scrolls antigos(os de nicho)
    É isso "só", mais ainda no aguardo do próximo texto, depois de saber que cê "nao morreu"
    Kkkkkkkkkkk
    Um abraço ae!

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  2. Muito obrigado pela gentileza, Phillip. Fico mesmo com os dedos coçando para escrever mais no blog. Ontem mesmo estava pensando num texto sobre o vindouro Pillars of Eternity, da Obsidian. Mas o tempo anda para lá de escasso. Muita coisa no trabalho e na vida pessoal, inclusive uma mudança de cidade, o que faz a vida da gente virar de pernas pro ar. Mas vou tentar escrever mais, sempre que uma brecha aparecer...

    Abração!

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  3. Finalmente, um novo texto! E ótimo texto por sinal! Concordo plenamente com tudo dito! Eu já passei centenas de horas nos jogos da Bethesda, mas nunca completei as quests principais e, apesar de não ter contado, metade dessas centenas de horas foram apenas andando e observando paisagens, conversando com pessoas, ouvindo conversas, para mim, isso é que é jogar um RPG, não ir atrás da armadura mais foderosa e da espada mais poderosa para matar todos os inimigos com um hit - apesar que em algum momento, isso passa a acontecer, em Skyrim, principalmente -. Mas, vou acabar o comentário gigante por aqui, e fico na espera de novos textos!

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  4. O Wasner Son of Bhaal (há controvérsias) escreve sempre muito bem e é apaixonado pelos temas. O post demora mas sempre vale a pena.

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