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13/05/2014

Kinect: Crônica de uma morte para lá de previsível


A Microsoft anunciou, no dia de hoje, que irá vender o novo Xbox por um preço inferior ($400) e - este é o detalhe importante - sem o Kinect. O anúncio, para qualquer um com mais de dois neurônios semi-funcionais, representa o prego final no caixão do Kinect, e o epitáfio definitivo dos controles baseados em sensores de movimento. É uma derrocada bem-vinda. Que descansem em paz.

Para mim, controles do gênero representaram, desde o inicio, um beco sem saída na longa cadeia da evolução tecnológica. O problema aqui é por definição de conceito, não algo técnico. Para mim, nunca passou de um modismo temporário, uma cortina de fumaça destinada a seduzir um público menos acostumado com os games em geral. E, inevitavelmente, destinado a desaparecer quando a novidade se esgotasse. Não vou repetir minha argumentação aqui. Quem tiver curiosidade, pode ler o texto original onde abordo detalhadamente este assunto, escrito em junho de 2009: Parte 1 | Parte 2. Cinco anos depois, não retiro uma vírgula do que escrevi.

A Sony, mais escolada com o volúvel mercado de games, tratou logo de pular fora dessa roubada. Seu PS4 se apóia no velho e testado gamepad. A Nintendo, que nunca acreditou no próprio marketing hiperbólico (o histérico bordão "OS GAMES NUNCA MAIS SERÃO JOGADOS DA MESMA FORMA!"), matraqueado a rodo pelos fanáticos habituais, foi a primeira a largar mão da tecnologia em seu novo console, o Wii-U. A Microsoft, seja por arrogância, seja por não saber de nada, a inocente, achou que podia impor, pela força da própria marca, o uso do dispositivo. Mesmo que isso implicasse num preço muito superior ao da concorrência, para um console tecnologicamente mais fraco. Deu com os burros n'água. Ao que tudo indica, a Microsoft ignorava, ou preferiu ignorar, um fator que há longa data limita o PC Gaming: o tal do "menor denominador comum", que aqui no blog apelido de "âncora tecnológica". E que agora afeta o seu Xbox.

Ora, o que ocorre é que já vai longe a época em que os games exclusivos de cada plataforma eram um fator-chave na indústria. A maioria esmagadora dos jogos relevantes da atualidade é multiplataforma. Especialmente os jogos "AAA", cujo desenvolvimento consome anos, centenas de profissionais e orçamentos paquidérmicos. A razão disso é óbvia. Para essas produções se pagarem, precisam vender muito. As chances de vender o suficiente para fechar a conta crescem proporcionalmente ao tamanho do mercado alvo. Portanto, se um jogo puder ser vendido tanto a jogadores de Xbox, quanto de PC e de Playstation, tanto melhor. É difícil, muito difícil, ter lucro com o público de apenas uma única plataforma.

Bem, se um game tem que rodar em múltiplas plataformas, nenhuma característica fundamental da sua jogabilidade deve depender de um recurso que exista em apenas uma delas. Esta regra básica "mercado-tecnológica" selou a (má) sorte do Kinect desde o princípio, mesmo que outros fatores tão importantes quanto não se fizessem presentes - e estão presentes (vide os artigos acima). Se um jogo fundamenta sua jogabilidade nos recursos do Kinect, ele não poderá ser portado para outras plataformas, onde tal dispositivo proprietário não existe. Ou, pelo menos, não poderá ser portado de modo fácil, eficiente, rápido e, portanto, econômico. Por conta disto, o Kinect é solemente ignorado na maior parte dos lançamentos. E, mesmo quando ele é lembrado, isso é feito de de forma periférica. Em características que, no fundo, não importam minimamente, ou que são completamente dispensáveis ou fáceis de se contornar. Por exemplo, existem games que implementam comandos de voz via Kinect. Acontece que os mesmos comandos podem ser executados clicando um botão no gamepad ou no teclado/mouse. Qual a opção mais eficiente e confortável para o usuário (e, vale lembrar, para o sossego dos demais moradores da residência)? Deixo para o leitor adivinhar.

Agora é aguardar que o Kinect siga, sem pompa ou solenidade, sua jornada final rumo ao Grande Cemitério Gamer das Idéias Falidas, pelo caminho já trilhado pelo Wiimote e pelo Move. Que todos eles alcancem o merecido descanso e esquecimento. Cumpriram sua sagrada missão de separar o consumidor do seu rico dinheirinho, em troca de um peso de papel sofisticado. Fica a esperança de que o público compreenda, finalmente, que nem tudo que é marqueteado como "Revolução" de fato o é. Enquanto isso não ocorrer, muita gente comprará "A Queda da Bastilha", apenas para descobrir que levou para casa o "Movimento Cansei".

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