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The Witcher 2 - Uma Resenha

sexta-feira, outubro 31, 2014 José Guilherme Wasner Machado 9 Comentários Categoria: , , , ,


Dando novamente um tempo em Pillars of Eternity, escrevo, a seguir, as minhas impressões sobre The Witcher 2: Assassins of Kings, que concluí recentemente. Sim, faço isso com um bocado de atraso, ainda mais considerando que comprei o jogo já no lançamento, ou seja, há mais de três anos atrás. Mas eu tive os meus motivos, como veremos a seguir. Infelizmente, motivos nada abonadores. O que é uma pena, já que sou fã da franquia, do personagem e da CD Projekt. Mas, calma, não troque de canal ainda.

The Witcher 2 não é um jogo ruim. Longe disso, asseguro. Mas talvez ele não seja o meu tipo de jogo, principalmente por conta do seus combates, que privilegiam a ação constante. O primeiro jogo também seguia essa linha, mas ali a coisa era bem mais fácil. Se o jogador mantivesse a devida cadência de golpes, conseguia lidar com os inimigos sem maiores dificuldades. Mas essa característica também diminuía o grau de desafio, pelo menos no nível de dificuldade padrão. Talvez para consertar este problema, o sistema de combate foi completamente remodelado na continuação. Para triunfar em The Witcher 2 é preciso ter bons reflexos e coordenação, principalmente na primeira metade do jogo. Em especial, é preciso saber rolar nos momentos certos. Sim, rolar. E rolar, e rolar e rolar. Eu chegava a ficar a com os dedos doendo de tanto acionar o movimento. Outros jogadores talvez não darão tanta importância para este "problema", mas, para mim, se tornou logo algo bastante cansativo e estressante. Estou ficando velho para este tipo de coisa.


A necessidade de rolar o tempo todo é consequência do personagem principal (Geralt de Rivia) começar o jogo não como o mítico e poderoso guerreiro que esperamos, mas sim como uma espécie de "Estagiário Witcher". Ele é péssimo para bloquear e seus golpes não causam grande dano. Se ele porventura sofrer um ataque pelas costas, o efeito é simplesmente devastador. Qualquer soldadinho barrigudo e beberrão dá trabalho - muito trabalho - para nosso herói. A única solução? Rolar. Rolar muito. Pois, mesmo que um inimigo lhe acerte o durante a acrobacia, pouco ou nenhum dano é sofrido, o que torna este um recurso bem mais eficiente do que o próprio bloqueio. Além disso, o rolamento tem a virtude de mover Geralt rapidamente para a desprotegida retaguarda do inimigo. Invertendo, em prejuízo deste, as graves consequências de um ataque pelas costas. O que torna tudo isso bastante cansativo é que Geralt se vê frequentemente cercado por muitos inimigos. Deste modo, é praticamente impossível evitar ataques pela retaguarda, exigindo que o jogador ative o rolamento o tempo todo.


Para me estressar mais ainda, o jogo introduz alguns combates orquestrados com QTEs. Esses QTEs exigem respostas precisas e tempestivas do jogador para que as ações programadas ocorram. A maior parte desses QTEs é fácil de lidar, mas não todos. A sequência do Kayran, ainda no capítulo 1, é um bom exemplo disso. A luta em si contra o monstro é demorada, exige precisão, e qualquer erro obriga o jogador a começar tudo de novo. Do zero. Mesmo quando fazemos tudo certinho, e finalmente conseguimos ativar o QTE ao final, o jogo frequentemente ignora os (desesperados) comandos do jogador, a despeito de serem executados da forma certa e no momento certo, botando a perder todo o esforço anterior. É algo MUITO frustrante. Não estou dramatizando quando digo que por pouco não destruí meu teclado em um acesso de raiva, na terceira ou quarta vez que tive este problema. Note, não a terceira ou quarta vez que repeti o combate, mas sim a terceira ou quarta vez que consegui chegar até o QTE. O combate em si, este eu perdi a conta das repetições. Até hoje acordo suando à noite, com a frase "YRDEN! USE YYYRRRDEN!!" ecoando no meu cérebro. Fiquei tão frustrado com este segmento que deixei o jogo de lado por mais de um ano.


Em outros RPGs, seria possível tentar compensar as deficiências do seu personagem com armas, itens e armaduras de qualidade superior. Aqui não. Os itens que fariam alguma diferença são obscenamente caros. Quase inatingíveis. Poucas vezes na minha vida testemunhei um jogo onde o dinheiro valesse tão pouco e fosse tão difícil de ser obtido, mesmo cumprindo todas as quests paralelas. A grana vem de forma tão mesquinha e pingada que se torna um recurso praticamente inútil. Só serve para itens menores, como suprimentos e componentes. Quando o jogador finalmente consegue juntar o suficiente para comprar um item genuinamente relevante e poderoso, provavelmente já terá encontrado alguma coisa melhor por conta própria, e de graça, em alguma caverna por aí. A revenda também também não ajuda muito. Um item que tenha custado os olhos da cara só vale alguns míseros trocados na hora de ser revendido. O valor de venda, com algumas exceções, é um quinto do valor de compra. É uma relação extremamente punitiva em desfavor do jogador.


Uma maneira de contornar parcialmente o problema seria mandar confeccionar os itens, que desta forma sairiam mais baratos. Mas é preciso comprar os diagramas e sub-diagramas necessários (mais $$$), e daí encontrar todos os componentes envolvidos. O que também não é fácil, e nem rápido. Para adotar essa estratégia, é importante que o jogador preventivamente carregue tudo que encontrar pela frente ao longo das missões. Aquele insuspeito pedaço de madeira pode se tornar absolutamente necessário mais tarde. Só que Geralt é um fracote, incapaz de carregar muito peso. Logo toda aquela tralha começa a pesar no lombo do herói, obrigando-o a jogar coisas fora. No final, é mais simples largar tudo isso para lá. Pois quando você finalmente juntar/comprar todos os componentes e diagramas que são necessários para montar um bom item, provavelmente já terá encontrado algo melhor, de lambuja, em algum cadáver ou baú por aí.


Bem, pelo menos os witchers sempre podem recorrer às suas famosas poções, que os transformam em verdadeiros super-humanos, não é? Isso, pelo menos, deveria ajudar, não?

Sim, de fato ajuda. Em combates comuns. Mas ajuda bem menos com os inimigos mais difíceis, os "chefes de fase". Isso ocorre porque os combates com os "chefes" são, com frequência, precedidos de longas cutscenes, e ao final delas Geralt já se encontrará em meio à batalha.  Daí se torna impossível usar as poções, pois elas exigem que o herói entre em modo de meditação para que sejam ingeridas. Sim, eu preciso "meditar" para conseguir arrancar a maldita rolha de uma garrafa e beber seu conteúdo, dá para acreditar nisso? Só que a opção para isso não está disponível durante o combate. Resta então ao infeliz jogador recarregar um savegame anterior, meditar (se for possível - nem sempre é) antes do ponto que aciona a cutscene e torcer para que o efeito dure tempo suficiente para ser aproveitado durante o combate propriamente dito. Pois a duração dos efeitos das poções também sofreu uma drástica redução em relação ao primeiro jogo. Mesmo nas ocasiões em que a batalha não é precedida por cutscenes, o "chefe" costumar estar situado em algum lugar onde é difícil, senão impossível, Geralt conseguir meditar.


Vou repetir aqui: nos momentos mais difíceis do jogo, nosso herói raramente pode fazer uso de alguns dos principais recursos que um witcher tem à sua disposição. Eu entendo - até aplaudo - o desejo de fazer um jogo desafiante, mas isso simplesmente não tem sentido algum. Fico pensando nos jogadores que resolveram se especializar na árvore de habilidades de alquimia, e, consequentemente, possuem habilidades de luta e de magia limitadas. Como eles conseguem se virar nessas horas críticas?

Isso foi... constrangedor.

Depois da metade do jogo, Geralt começa a se tornar um lutador mais decente, então os rolamentos não se tornam tão necessários o tempo todo, e o combate volta a ficar agradável e até mais tático. Os outros problemas citados, infelizmente, permanecem. E não são só eles. O mapa é bem confuso e nem sempre indica com clareza onde o jogador deve se dirigir para completar uma missão. O jornal, que lista missões e objetivos, também não colabora muito. É dúbio e igualmente confuso. Os cenários, embora bonitos, são muito limitados em tamanho. Isso não impedirá, todavia, que o jogo te mande de lá para cá e de cá para lá repetidamente, algo que se torna particularmente irritante pela forma como os cenários foram desenhados, obrigando muitas vezes o jogador a dar voltas e mais voltas. E não há fast travel para contornar esses empecilhos, o que seria bem útil neste caso.


Sim, são muitos os problemas, principalmente para aqueles que, como eu, preferem combates menos focados em ação e reflexos. Ainda assim, recomendo o jogo a todos os fãs de RPGs que apreciam uma boa história. É ela que nos mantém jogando, mesmo que, às vezes, precisemos dar um tempo para passar a raiva. É na história que vemos tudo aquilo que tornou o primeiro jogo famoso. Aqui não há certo ou errado. Uma decisão bondosa pode trazer desdobramentos terríveis no futuro. Os personagens são interessantes, com motivações complexas e que nem sempre se encaixam nos velhos estereótipos de bem versus mal. Geralt constantemente se verá diante de decisões difíceis. Que, não raro, colocarão em apuros alguém que ele gosta. As ações do jogador desencadeiam consequências bastante dramáticas. Dependendo das escolhas feitas, longas linhas narrativas são eliminadas. Inteiras. Lugares, missões, personagens, romances e itens que jamais serão vistos, a menos que ele esteja disposto a reprisar o jogo no futuro. É preciso muito colhão para solapar tanto conteúdo assim, baseado em uma decisão do jogador.


Os gráficos e a direção de arte também são excelentes. Anos-luz à frente de Dragon Age 2, que saiu mais ou menos na mesma época. As animações faciais, todavia, ficam a dever aos jogos da Bioware, embora tenham avançado bastante em relação ao primeiro jogo. O conjunto limitado de animações corporais (que ocorrem durante os diálogos) também costumam sabotar a intensidade dramática do momento. Mas é algo que dá para relevar, embora o efeito seja cômico, às vezes. Há também um bug que exibe uma "imagem fantasma" acompanhando o herói. É incômodo, mas também dá para perdoar. A trilha sonora, como já virou tradição na série, é belíssima.

Sim, é isso mesmo que você está pensando.

Infelizmente, há poucos MODs realmente úteis para o jogo. E nenhum para pular a maldita luta com o Kayran, o que é uma pequena tragédia em si. Recomendo bastante o mod que zera o peso das quinquilharias e um outro que ameniza a punitiva relação compra x venda de itens. Os dois deverão tornar mais úteis o comércio e a confecção de itens. Há também um gigantesco MOD que altera dramaticamente o combate e a progressão de habilidades de Geralt, além de uma miríade de outros fatores de jogabilidade, e até mesmo animações e gráficos. Esse MOD, por incrível que pareça, foi feito por um insider da própria CD Projekt. Concluo daí que entre os desenvolvedores do jogo há alguém que compartilha, em alguma extensão, das críticas que fiz nessa resenha. Infelizmente não pude testar este MOD, mas fica a dica para o leitor. Se o combate e/ou a progressão de habilidades estiverem te irritando, é uma alternativa a ser considerada.


Concluindo, admito que, no conjunto geral, me diverti bem mais com o primeiro The Witcher. Mas a história deste é superior, e os fãs de ação não se importarão tanto assim com a maioria das questões acima descritas. Que não seja por mais nada, jogue Assassin of Kings pelo enredo e pelos personagens. Vale a pena. Mas espero, sinceramente, que o próximo capítulo corrija alguns dos problemas citados e que tornaram tão cansativa a minha passagem por este título. Que não usem mais esta estratégia de iniciar Geralt como um bobalhão, cujos defeitos são retirados à medida que ele sobe de nível. Que nosso herói comece da forma que ele merece: não como um estagiário mais apropriado para buscar cafezinho e tirar xerox, mas sim como um badass poderoso, mortal e capaz de provocar terror nos inimigos. E não nos jogadores.

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9 comentários

  1. A luta com o Kayran é um dos pontos altos do jogo em termos de criaturas. Se o QTE fosse algo isolado, como um ponto
    de reinicio após a morte seria o ideal.

    Realmente a economia do jogo é punitiva. Tirando fórmulas e algum item que faltar nas receitas, pouco se aproveita.
    Aí você faz uma mega quest onde encontra a armadura do mítico guerreiro XYZ, na hora de vender, vale nada!

    Eu não aguentei as limitações de carga do Geralt e simplesmente usei um mod para suavizar isso.

    Realmente a duração das poções é muito limitada, e um dos pontos transformados naquele megaultra mod
    feito por desenvolvedor da CD pirata Projekt.

    Nosso, o mapa desse jogo é quase inútil, uma vergonha. E pior que como o cenário é cheio de
    paredes invisíveis, e limitações idiotas como não permitir pequenas quedas, haja voltas para
    achar o caminho.


    Esse problema do Geral começar muito fraco é realmente chato. O jogo fica bom para valer a partir do 2o
    ato, mas quando está mais legal, simplesmente acaba! Para minha sorte resolvi jogar agora
    com o W3 batendo à porta...

    Tiveram também muito colhão por permitir um final sem combate.

    O Steam está marcando 60 horas mas devo ter jogado bem menos na prática com longas pauses. E olha que fiz
    toda quest que apareceu na frente. Mas pelo visto o mundo aberto do terceiro vai resolver esse ponto,
    além de enfim quick travels!!!

    Apesar desses problemas, é um jogo superenvolvente, escrito de forma adulta e o universo é muito
    criativo. Realmente você vê o poder de um rei, e o caráter ameaçador de um mago de alto escalão.
    Altamente recomendado!

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  2. Apenas um teste de post. Já considerou integrar o blog ao Disqus ou outro do gênero? A moderação para quem já é "cliente antigo" desanima.

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  3. Essa luta contra o Kayran foi uma das coisas mais desgastantes da minha vida, mas entendo que isso é bem pessoal, eu sou muito estressado! :)

    O mapa era especialmente necessário no jogo, porque muitos dos cenários são confusos e labirínticos. Mas mais atrapalhava do que ajudava.

    Independente desses problemas, a história compensa e MUITO. E achei incrível me permitirem contornar a luta final. Aguardo o próximo com ansiedade!

    Uso o Disqus no Tumblr. Mas não sinto problema na moderação do próprio Blogger, ainda mais hoje em dia. Depois de tanto tempo congelado, o blog não atrai mais tantos comentários...

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  4. O normal seria, eu , por exemplo já ficar livre de moderação. Veja bem, todos meus comentários você tem que liberar!!! E o esquema do Google é tão tosco que as vezes fico em dúvida se foi submetido mesmo o comentário.

    Eles foram inteligentes. Colocaram um ápice com o dragão, luta fácil por sinal. E aí você poderia ter mais uma luta final ou não. Eu optei por não lutar.

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  5. I love this! "Seu comentário estará visível depois de ser aprovado. "

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  6. "O normal seria, eu , por exemplo já ficar livre de moderação. Veja bem, todos meus comentários você tem que liberar!!!"

    Você é um Organiano, mas não é Deus! :D

    Falando sério, isso é verdade mesmo: bem que o Blogger podia ter recurso de lista branca e lista negra. Acho que lista negra ele até tem. Mas não dá para reclamar muito, afinal é gratuito, e tem me servido bem ao longo desses últimos seis anos. Integrar o Disqus, tenho preguiça, não acho que compense o esforço. Prefiro focar meu tempo disponível para o blog em outra coisa.

    De qualquer modo, vou desativar a moderação. Estava ativada há um tempo por conta de trolls e, principalmente, spammers. Zeus, como recebi spam neste blog! Vou desativar a moderação, voltando a dar problema, reativo.

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  7. É um paliativo mesmo. Também só acho que valeria o Disqus se fosse bem simples de você configurar. Não sei como é no blogger.

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  8. Ótima resenha, concordo com vc sobre a maioria do tópicos. Só discordo sobre o Kayran que não achei tão traumatizante assim. Talvez porque eu já iniciei o jogo com uma boa armadura e boas espadas devido ao save do 1º witcher e/ou talvez por já estar psicologicamente preparado pois eu já tinha lido a sua resenha antes de começar a jogar. Em compensação eu quase quebrei o controle quando enfrentei o Draug...

    O mapa do jogo é simplesmente inútil, ter que meditar para tomar uma poção é uma piada Não sei porque tem um sistema monetário no jogo, terminei com mais de 8.000 orens e a única coisa que realmente precisei comprar foi o esquema de uma bomba para explodir uns ninhos para concluir uma missão segundaria do 1º capítulo. Os melhores itens eu peguei pelo caminho e de graça.

    Eu também gostei muito mais do 1º jogo, tanto que a única coisa que manteve o meu interesse até o fim foi a história. No 3º capítulo eu nem peguei aquelas missões segundarias que ficam no mural. Só queria chegar no final logo e ver quais as finalizações do enredo.

    Quando terminei o 1º witcher já estava com vontade de jogá-lo novamente mas quando terminei o The witcher 2 simplesmente o desinstalei e pronto.

    O jogo é bom mas não foi um jogo que me viciou a ponto de querer repeti-lo.

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    1. Suas impressões são bem próximas das minhas, Luiz. Fica o consolo de que o terceiro jogo é BEM superior ao segundo. Não perfeito, mas bem superior. Estou simplesmente adorando!

      Grande abraço!

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