Planetóide X

Dragon Age: Inquisition - A Vingança da Bioware?

terça-feira, janeiro 27, 2015 José Guilherme Wasner Machado 20 Comentários Categoria: , , ,


Dragon Age 2 foi quase universalmente massacrado pelo público. Mesmo tendo algumas qualidades, o jogo, em última análise, é bem ruim. O pior dos seus vários defeitos é, sem dúvida alguma, os cenários: pobres, feios, lineares, minúculos, reciclados à exaustão e completamente desprovidos de imaginação ou inspiração. Dragon Age: Inquisition, com suas belas e gigantescas áreas e uma liberdade bem razoável para explorá-las, parecia ser o pedido de desculpas da Bioware por essa falha. Todavia, agora que passei das cem horas de jogo, estou achando que é exatamente o contrário. Seria Inquisition, na verdade, a doce vingança da Bioware contra os detratores de DA2?

Quero deixar bem claro: adoro jogos demorados. E adoro cenários gigantescos, com grande liberdade de exploração. É por isso que aprecio os RPGs da série Elder Scrolls - como Morrowind ou Skyrim. Mas, enquanto nesses jogos é um prazer se atirar às vastidões desconhecidas, em Inquisition o mesmo não ocorre. Me sinto menos como um aventureiro e mais como um ratinho no labirinto de algum cientista sádico. Ou, talvez, como um catador de papéis que precisa cumprir uma penosa jornada de trabalho em uma cidade desenhada especialmente para enlouquecê-lo.

Dos horrorosos "corredores virtuais" de Dragon Age 2...

... para as amplas regiões de Dragon Age: Inquisition. Mas não ligue ainda.


Como duas propostas que parecem tão semelhantes puderam produzir resultados tão diferentes?

Vejamos.

1) Chegar ao seu destino nos cenários de Inquisition é quase sempre um sofrimento. O ponto de chegada pode aparentar, no mapa, estar muito próximo do jogador. Mas, na verdade, estará MUITO mais distante do que se imagina. Um trajeto mais ou menos reto e direto até ele é quase sempre algo impossível. Assim que o jogador estiver chegando ao alvo, dará de cara com um desfiladeiro, um paredão, um muro, uma encosta. E daí terá explorar meticulosamente o cenário, procurando um caminho que contorne o inconveniente obstáculo. Só que este caminho dificilmente estará por perto.

Muitas vezes os obstáculos circundam completamente o ponto de destino, exceto num único lugar: um local distante, camuflado e difícil de se alcançar. Boa sorte para encontrá-lo.

2) Não é raro que o ponto de destino esteja situado no alto de uma montanha ou no ponto mais elevado de uma edificação semi-destruída, obrigando ao usuário uma sofrida e frustrante escalada para chegar até lá. É um chatíssimo processo de tentativa e erro, com o personagem escorregando de volta a cada pulo malsucedido. E se você pensa em salvar o jogo durante a escalada, para retomar de onde parou no caso de uma queda, pode esquecer. Ao recarregar, você não estará mais no pequeno degrau onde se encontrava, mas de volta ao nível do solo.

3) O desenvolvedor é tão sádico que permite que você consiga, com muito custo, escalar todo um caminho gigantesco... só para ser bloqueado no último instante por um degrau bem pequeno, mas ainda assim alto demais para subir. Posteriormente, o jogador descobrirá que o caminho real para o ponto de destino envolve não a aparentemente óbvia escalada, mas sim dar a volta por 3/4 do gigantesco cenário.

Deixa eu te contar um segredo: não é acidental. É proposital. Sim, o desenvolvedor te odeia deste tanto.

4) Se o desenvolvedor porventura se esqueceu (ele é humano, afinal) de colocar uma pedra ou árvore para impedir um caminho mais fácil ou agradável, não há problema. Seu colega, precavido, já ergueu uma longa parede invisível. Uma última barreira de segurança, digamos. Nada mais gratificante do que saltar para frente e dar de cara com um obstáculo invisível, não é mesmo? Ainda mais quando passar entre aquelas duas árvores iria te poupar vinte minutos de tediosa caminhada. Mas tudo bem. Na visão da Bioware, você tem tempo de sobra. Você não tinha, quando reclamou de Dragon Age 2? Pois é.

5) Como se não fosse suficiente dar voltas e mais voltas, ter que ficar pulando e escorregando mil vezes, ser enganado quanto ao melhor caminho, e ser bloqueado no último instante, Inquisition ainda faz você pagar caro por cada centímetro conquistado. Inimigos abundam, com taxas de respawn extremamente agressivas. Matar aquele gigante que obstruía seu caminho foi difícil, não foi? Opa, não olhe pro lado... vem aí mais DOIS. Esgotou suas reservas de poções, mas conseguiu liquidá-los? Então rápido, ande logo, não pare para respirar ou... tsc, tarde demais. Os três já foram rematerializados. Em segundos. Sua luta demorada, dispendiosa e cansativa foi, portanto, completamente em vão. Bem, melhor fugir. Para a direita! Eis que surgem do nada dois ursos gigantes, a alguns passos de distância. Para a esquerda, então! Mais dois ursos mágicos! Retrocedamos, é o jeito. Mas é tarde demais, o caminho de fuga já foi bloqueado por um gigante e um urso.

Eu não estou exagerando. Cerca de cinco segundos após matar os três gigantes, os três sofreram respawn. Dois passos em qualquer direção, e eu dava de cara com algum inimigo ou monstro. As belas florestas de Inquisition são mais mais movimentadas do que um shopping numa tarde chuvosa de sábado.

Para ser justo, a densidade de inimigos e respawns varia muito de um local para outro. Mas é impressionante que, quanto mais pressa você tem, ou quanto mais você precisa economizar seus recursos, mais o jogo interpôe magicamente obstáculos no caminho.

6) Não conte muito com fast travel para evitar lutas, escaladas, voltas e labirintos indesejados. Os pontos de viagem instantânea são poucos, espaçados e estão invariavelmente distantes do destino desejado.

7) Inquisition foi inicialmente planejado para ser um MMO. Percebe-se isso claramente na quantidade abundante de missões "de coleção": "Colete N artefatos/itens X"; "Mate N inimigos Y"; "Conquiste Z campos adversários". E essas missões são importantes para aumentar o poder/nível do jogador ou ter acesso a itens poderosos. Sabe o nome disso, não é? Grinding. Exatamente o que se esperaria de um MMO. E é por essas e outras que eu evito MMOs.

Coletar trocentos artefatos espalhados por um enorme cenário que faz de tudo para atrapalhar o seu avanço não é algo que considere muito divertido. Ainda mais levando em conta que algumas missões exigem a busca de dezenas de itens. Para piorar tudo, essas missões espalham seus alvos por toda a região corrente, obrigando o jogador a retornar várias vezes a locais que ele julgava devidamente esgotados. Não dá para recolher os itens antecipadamente, pois eles simplesmente não existem até que a missão seja ativada.

Praticamente cada losango desses é um item a ser coletado. Em áreas que eu JÁ explorei. E explorei. E explorei. Haja, viu!


Por alguma razão, tenho a sensação de que Inquisition não joga limpo com o jogador.

Os cenários de Elder Scrolls, de modo geral, são "honestos". Neutros. Imparciais. Indiferentes. Como lugares da vida real. Claro, podem existir obstáculos que impeçam/dificultem o avanço do jogador, mas isso costuma ocorrer de uma forma mais natural e menos opressiva. Em Inquisition, é como se um "deus" sádico estivesse brincando de tornar miserável a sua vida. Fazendo você, o ratinho, penar para conseguir atravessar o labirinto e alcançar o potinho de comida. De preferência, pelo caminho mais longo e tortuoso possível.

Os jogos Elder Scrolls lhe convidam a explorar um mundo fantástico ao seu bel prazer. Inquisition lhe convida a superar obstáculos. E mais obstáculos. E ainda mais obstáculos. De uma forma totalmente artificial, repetitiva e até mesmo cruel. As recompensas, por outro lado, são minguadas. Parece mais o cumprimento de uma jornada de trabalho em uma linha de produção em série do que uma aventura excitante por terras exóticas.

No final, fica a sensação de que os desenvolvedores não quiseram exatamente aplacar os críticos de Dragon Age 2, mas se vingar dos atrevidos. "Vocês reclamaram dos nossos cenários minúsculos, não é? Reclamaram que estavam sendo 'espremidos em um corredorzinho', é assim? Querem andar, explorar, passear? Ok, vamos dar ***exatamente*** o que vocês pedem... e faremos com que se arrependam amargamente por isso [Risadas Malignas]".

Tudo isso significa que não vale a pena jogar Inquisition? Não sei. Dependerá muito de cada um. Tem gente, afinal, que adora um grind. Da minha parte, penso que o jogo oferece sim bons momentos de diversão, que compensam de alguma forma esses momentos de irritação. Se não fosse assim, será que eu estaria ainda aqui, mais de cem horas depois? Honestamente, ainda não cheguei a um veredicto. Preciso antes terminar o jogo.

Por isso, de volta à labuta, que o apito do turno da tarde já tocou, e eu estou atrasado. Tenho que coletar vinte shards, quinze fragmentos de documentos e onze artefatos élficos, recolher trinta e dois livros, matar nove Red Templars, reivindicar três campos de suprimentos e destruir sete estoques de Red Lyrium. E tudo isso antes do final do expediente. Deseje-me sorte, eu vou precisar.

[UPDATE] Após mais de 100 horas, terminei o jogo. Você pode conferir minhas impressões finais sobre ele no seguinte post: Dragon Age: Inquisition - Uma Resenha.

Veja Também

OUTROS POSTS

20 comentários

  1. Poxa, que relato decepcionante! E esses respawns, que coisa absurda!

    ResponderExcluir
  2. Esse tanto de missão MMO e com essa dificuldade de movimentação realmente o alvo é torturar o jogador.

    ResponderExcluir
  3. Decepcionante MESMO. Mas é o retrato da Bioware-EA... :(

    ResponderExcluir
  4. Mas estão preocupados em melhorar. Ou não?
    http://www.highdefdigest.com/news/show/games/sheet-music/date/Download/bioware-offering-the-tavern-songs-from-dragon-age-inquisition-for-free-for-a-limited-time/20772

    ResponderExcluir
  5. Eu não li tantas review assim mas não li reclamações sobre esses pontos. Você viu em alguma? Acho que a decepção com o DA2 foi tão grande que as melhorias do DAI acabaram ofuscando essas falhas terríveis.

    ResponderExcluir
  6. Bem, digamos assim: se vc olhar pelos reviews, Dragon Age 2 é um JOGAÇO IMPERDÍVEL. E hoje os mesmos sites criticam bastante aquele jogo...

    Além disso, uma resenha tem que ser publicada rápido. Daí o cara se concentra no mínimo para chegar ao final, deixando muitas sidequests de lado. O chefe final será dificílimo de derrotar, mas é possível.

    Isso SE eles realmente completam o jogo.

    Não me importo muito de ser minoria ou ser mesmo a único a ter uma determinada posição. Se não, iria ser muito redundante meu esforço. Por isso que sinto mais animação a escrever uma resenha qdo vejo que ela não será a centésima a falar a mesma coisa. Qdo isso acontece, tendo a largar para lá...

    Não acho que a EA dar trilha sonora compense as maldades... :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Realmente deveria existir uma modalidade de reviews que fosse ao menos de média duração. Mas sabemos como a coisa anda hoje, então é tudo na correria para sair no dia do lançamento. Ainda bem que existem os Planetoidex da vida!

      Excluir
    2. No caso dr jogos com campanhas curtas, como shooters, por exemplo, isso não afeta tanto. Mas num RPG que dura entre 60 a mais de 100 horas, afeta sim. Por isso que não surpreende a opinião de um site mudar tanto a posteriori. Não acredito em roubalheira não. Acho que o reviewer foi honesto... mas, muitas vezes, se baseou numa experiência mais superficial do que devia.

      Excluir
    3. Nos maiores sites realmente dá para esperar uma boa imparcialidade.

      Excluir
    4. Realmente quanto mais longo o jogo, mais complexo fazer uma review realmente completa em pouco tempo.

      Excluir
  7. Deixando bem claro que eu não invento reclamação... quando um defeito do jogo é esporádico, deixo para lá. Não é o presente caso!

    Ah, sim, um cara do Kotaku teve reclamações similares às minhas. Foi num artigo específico, não na resenha.

    Mas é sempre bom deixar claro que opinião é pssoal... o que eu odiei, outros podem não se importar tanto assim. Tem que jogar e ver o que vc gosta ou não. ..

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você é até mais clemente que eu, então... Sem dúvida sei que não reclama à toa.

      Eu cada vez gosto de jogar jogos onde as mecânicas fazem sentido, e sem quests e outros que sejam idiotas, mecânicas e repetitivas. Pelo que você comentou eu possivelmente também vou odiar essas características, mas só jogando para ter o panorama final.

      Excluir
    2. De boa te aconselho a jogar sim!
      Primeiro q gosto é de cada um, segundo q tem tantas criticas q era melhor nem ter feito tanto, e sim só dizer q n gostou d jogo.
      Eu gostei achei melhor q skyrim , contem erros porem os personagens são mais carismáticos, a movimentação dos chars puta muito boas, n parecem flutuar quando andam ou correm q nem em MTS jogos, e os combates são mt dinâmicos e se usa mt mais a sabedoria do q sair batendo q nem um ogro.
      Mas como disse cada um tem uma opinião e a minha e q vc Jogue e analise bem, n como fã d um ou de outro mas como fã de jogos de RPG.

      Excluir
  8. Ah, o texto do Kotaku: http://kotaku.com/i-wish-dragon-age-inquisition-respected-my-time-1677548813

    E ele falou de outra coisa queceu tb não gostei e pretendo falar na resenha final: como a relação com o pessoal da sua equipe é superficial em comparação com outros jogos da Bioware. E mesmo a campanha principal. Nesse ponto, DA2 dá uma surra em DAI...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Poxa, pisaram na bola numa das essências do Dragon Age.

      Excluir
  9. Os comentários que foram excluídos é pq estavam duplicados. Algum problema com meu smartphone aqui...

    ResponderExcluir
  10. Esta óbvio, claro e nítido, n só a frustração de todo o texto como a preferência do mesmo por Elder Scrolls, se nota um fã claramente, como a mesma disputa entre console e PC.
    Vem com um texto de críticas em um jogo q por esperientes ganhou como RPG do ano de 2014, sim ainda imagino q diria se rivesem feito um Elder Scrolls no mesmo ano teria ganho... Quem sabe?
    Porem sim tbm concordo q o jogo tem falhar, algumas na qual eu acho grotesca, como : o tempo e as condições climáticas n mudam a n ser por ocorrência de história, vc n poder mergulhar ou nadar...
    Porem ainda sim é superior ao Elder Scrolls em bug por ex: minha nossa subia uma montanha e travava no meio dela q só resetando p sair, ou eu ter uma montaria e a mesma ae eu descer eu perdia!!! Entre outros vários erros q contia em Skyrim.
    Em fim sim, dragon age poderia ser mais trabalhado, e mesmo assim e melhor q Elder Scrolls.

    ResponderExcluir

Por favor, fique à vontade para comentar, criticar ou sugerir. Mas não será permitido trolling, bullying, spam, preconceito e ataques meramente pessoais ou destrutivos.