Planetóide X

O que o Windows 10 trará de bom para o jogador de PC (spoiler: quase nada).

sexta-feira, janeiro 23, 2015 José Guilherme Wasner Machado 0 Comentários Categoria: ,


A seguir, minhas impressões sobre as novidades apresentadas ontem na conferência da Microsoft. O escopo deste post é limitado aos assuntos que podem afetar futuramente os jogadores de PC. Vamos lá?

Upgrade gratuito e DX12

Quem possui Windows 7 ou 8 poderá migrar gratuitamente para o Windows 10 durante o primeiro ano. Isso é ótimo, pois teremos acesso ao DirectX 12 sem custos adicionais de software. Segundo a MS, a nova API oferece grandes ganhos de performance (há relatos de até 50%) em comparação com a versão anterior, especialmente em multiprocessamento.

A maioria das GPUs DX11 que hoje estão no mercado devem usufruir dos ganhos de performance oferecidos pelo DX12, pois a nova API é retrocompatível. Todavia, um novo conjunto de instruções foi introduzido, e isso, provavelmente, só será suportado por GPUs realmente DX12. Assim, se você deseja compatibilidade total e estava pensando em comprar uma nova placa de vídeo nos próximos meses, talvez seja melhor esperar até que os primeiros modelos DX12 estejam disponíveis. Sinceramente? Isso não fará tanta diferença nos próximos anos. Poucos serão os desenvolvedores que recorrerão a esse novo conjunto de instruções, por um bom tempo ainda. Se o fizerem, alienarão grande parte do público alvo, uma atitude comercialmente idiota. Até que uma grande base de usuários DX12 esteja formada, a maior parte dos jogos não deverá exigir isso como um pré-requisito.

Saiba Mais:

- Don't panic! DirectX12 won't require a new graphics card after all
- DirectX 12 detailed: Backwards compatible with all recent Nvidia GPUs, will deliver Mantle-like capabilities

Xbox App

Outra informação revelada é que o Windows 10 trará uma "App Xbox" pré-instalada. Essa aplicação fornecerá uma certa integração com o console da Microsoft. O usuário poderá, por exemplo, conversar e interagir com os amigos xisboqueiros. A aplicação também exibirá a biblioteca de jogos local (inclusive de outros fornecedores, como Steam e Origin) e adicionará alguns recursos úteis - por exemplo, gravar os  últimos 30 segundos de jogatina (sim, a MS nunca ouviu falar do Fraps).

A Microsoft anunciou pomposamente que esse aplicativo significaria um futuro "mais social e interativo para os jogadores de PC". Não ria. Na cabeça da empresa, se você não está interagindo com a galera do Xbox, não está interagindo com ninguém. Sim, auto-estima é tudo.

Chamem-me de paranóico, mas, para mim, este Steam dos Pobres aplicativo irrelevante e redundante, inocente (e inútil) como aparenta ser, é uma cabeça de ponte disfarçada para invadir as nossas praias. O primeiro passo no longo processo de migrar o Windows para um modelo de negócio similar ao dos consoles e da Apple. E daí acabar com a nossa invejada liberdade de comprar onde quisermos e instalar o que desejarmos. Sim, pode ser paranóia minha (e, por sinal, da Valve também), mas nunca duvide, por uma segundo que seja, da ganância dessas empresas. Quantas já tentaram confinar os usuários em um curral tecnológico, e criar assim uma reserva de mercado para elas? É o Santo Graal da indústria. Só que é para poucos.

Fica a torcida para que a Microsoft entenda que a longevidade do Windows está atrelada ao sucesso do PC. Um sucesso que se deve, em grande parte, por ele ser um ecossistema aberto, flexível, barato, democrático e (relativamente) anárquico, a despeito do SO dominante ser proprietário. Destruir essa característica pode ser o prego final no caixão do Windows, cuja  relevância vem sendo, aos poucos, solapada pela concorrência.

Streaming de Xbox

A exemplo das Steam Machines, do Shield, do Forge, e do concorrente PS4, a Microsoft, sempre chegando atrasada à festa, apresentou uma solução de streaming similar ao que foi abordado no artigo O Console do Futuro, aqui do blog. O Xbox, neste caso, funcionaria como o servidor de games, e o PC e os tablets funcionariam como clientes, recebendo frames de imagem e retornando comandos.

É um recurso interessante para quem possui um Xbox. Para os demais, já existem outras soluções para seus próprios ambientes.

Fable Legends vai sair para PC

[BOCEJO GIGANTE]

Se estivéssemos falando aqui de um Red Dead Redemption da vida eu poderia tentar me importar um pouco mais.

Bem, os fãs (corre um boato de que eles existem, embora outros digam que é uma lenda) ficarão felizes em saber que poderão participar de jogatinas online com seus amigos do Xbox.

Brincadeiras à parte, isso pode ser um sinal de que os títulos exclusivos de Xbox sairão eventualmente para PC, mais cedo ou mais tarde. Não há nenhuma franquia exclusiva do Xbox que me interesse particularmente, mas... quem sabe?


HoloLens: Óculos Holográficos...

... que, na verdade, não são "holográficos". Trata-se de algo na linha da Realidade Aumentada. A idéia aqui é inserir elementos virtuais no mundo real e permitir que eles seja manipulados pelo usuário. Alguns fãs, em frenesi, sentenciaram que o aparelho (ainda um mero protótipo, por sinal) destruiria o Oculus Rift. Nada a ver. São produtos diferentes, com propósitos diferentes. Não duvido que o aparelho da Microsoft poderia ser adaptado para funcionar em um modo totalmente VR, mas não seria este seu objetivo principal. Será que num modo totalmente VR ele seria tão bom quanto um Oculus Rift? Não sabemos. Mas eu duvidaria.

No que diz respeito a jogos, o dispositivo sem dúvida tem potencial, mas ainda é cedo para dizer quais vantagens específicas ele traria sobre uma solução de VR. Se é que exista alguma. Pessoalmente, acho que as aplicações mais empolgantes da tecnologia serão em outras áreas. Por exemplo, o aparelho da Microsoft poderia ser usado para modelar produtos e objetos 3D de uma forma bem mais interativa. Uma vídeo-conferência seria muito mais envolvente, com os demais participantes "presentes" no mesmo ambiente do usuário. Assistir um filme ou escutar uma música poderia se transformar numa experiência radicalmente diferente. O ensino à distância obteria enormes benefícios. Mas libertar a tecnologia do ambiente doméstico é essencial para que ela se transforme realmente em algo revolucionário. E para isso é preciso que ela seja incorporada de forma invisível a óculos comuns, inclusive de grife.

Pense, por exemplo, em um usuário viajando pelo exterior, mas vendo cardápios, instruções e placas de trânsito na sua língua natal. Sem precisar olhar para um smartphone, como ocorre com o Google Translate. Não, a coisa está ali, na frente dele, de forma natural e indistinguível. Uma visita ao museu seria muito mais rica, com o óculos identificando os objetos e trazendo uma enorme variedade de informações sobre eles. Andar por uma cidade desconhecida seria bem mais fácil, com setas virtuais guiando o usuário até o destino, enquanto um mapa bidimensional é inserido em algum canto. As aplicações seriam infinitas. Mas a performance, consumo e a miniaturização necessárias para tanto levarão um bom tempo ainda para serem alcançadas. Talvez décadas.

Um sistema operacional, múltiplos dispositivos.

A idéia da Microsoft é unificar o sistema operacional entre os diversos dispositivos suportados por ele: tablets, smartphones, Xbox e PC. Isso pode beneficiar os jogadores de PC na medida em que facilita a portabilidade de um determinado jogo, ainda que ele tenha sido criado originalmente com foco exclusivo no Xbox ou em tablets. Na prática, teremos que ver se isso realmente trará alguma vantagem. Um jogo que seja exclusivo de Xbox deve permanecer assim por um bom tempo, mesmo que seja possível executá-lo no PC sem praticamente nenhuma modificação. A razão aí é comercial e estratégica, não tecnológica.

Conclusão

Exceto pelo upgrade gratuito para o Windows 10 (=> DirectX 12), essa conferência da Microsoft não trouxe nada de muito interessante para o jogador de PC. Não me entenda mal. O Windows 10 parece ser muito bom, e certamente pretendo migrar para ele... ainda mais com o upgrade sendo gratuito. Mas é isso.

Se ainda havia alguma dúvida (e sim, existe gente inocente a tal ponto), ficou claro de uma vez por todas que a Microsoft enxerga o PC apenas como um adereço do Xbox. Os ingênuos que a cada upgrade do Windows caem na conversa fiada de que "AGORA sim a MS vai apoiar o PC Gaming", mais uma vez se decepcionaram. E continuarão a se decepcionar para todo o sempre, até que o Sol consuma a Terra daqui a bilhões de anos.

A regra é clara: enquanto a Microsoft possuir um console próprio, ela jamais investirá no PC Gaming. Exceto como um apêndice, um coadjuvante, um sidekick. Não interessa absolutamente fortalecer algo que a empresa vê como um concorrente.

Não sei quanto a vocês, mas dispenso a "honra" de sermos o Robin do Batmanbox. Não quando temos todo o potencial para sermos o Superman.

As únicas chances da Microsoft investir forte no PC Gaming é se A) o Xbox fracassar, o que não é provável a médio prazo e/ou B) ela ter sucesso em transformar o PC em um ecossistema fechado e controlado exclusivamente por ela, coisa que hoje em dia não ocorre. E que, espero, jamais venha a ocorrer.

A Microsoft promete novidades sobre todos estes assuntos na GDC 2015, que ocorrerá em março. Aguardemos.

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