Planetóide X

O PC está morrendo. É, de novo.

terça-feira, março 17, 2015 José Guilherme Wasner Machado 3 Comentários Categoria:


Você já soube da última? O PC está morrendo. Sim, é isso mesmo. De novo. Já estava me perguntando quando a notícia viria. Desde o início da década de 90 que há pelo menos uma previsão apocalíptica por ano sobre a "Morte do PC". É claro que 2015 não seria exceção à regra. Desta vez, o "profeta do apocalipse" foi a Wired. Com o artigo "Não, de verdade, o PC está morrendo e não vai voltar", a revista digital recorre mais uma vez ao surrado argumento das quedas na vendas de PCs, desta vez confrontadas com o crescimento contínuo do mercado de tablets e smartphones.

Esse argumento não é exatamente inédito (nunca é). Quando os notebooks/laptops começaram a se popularizar, mais de uma década (ou duas?) atrás, também previram, usando essa mesma "lógica", que os PCs tradicionais do tipo desktop iriam desaparecer. Era "inevitável" sua substituição."Os laptops são muito mais vantajosos!" - afirmavam categoricamente os profetas de então - "Eles são portáteis, ocupam menos espaço em casa, são mais elegantes, gastam menos energia... quem não vai preferir?!".

Chamem-me de louco, mas, vinte anos depois, continuo vendo desktops por aí. All. The. Time.

Não deixa de ser interessante lembrar, neste ponto, que quando os PCs se popularizaram, lá pelos anos 80, outros profetas previram a "inevitável" morte dos mainframes. E os mainframes, vejam só, também continuam por aí. Firmes e fortes.

Agora os Babalorixás Tecnológicos preveem a morte dos desktops *E* dos notebooks.

Vão falhar de novo.

O PC se diversifica

O PC não está morrendo. Está apenas se diversificando. Como, aliás, é o seu costume. O que são smartphones e tablets senão novos tipos de PCs? Todos eles, sem exceção, são dispositivos genéricos computacionais. Alguns mais controlados, outros menos, mas é só. Ligue um teclado bluetooth a um tablet, e subitamente o dispositivo fica com "cara de PC". Talvez a Wired precise fazer isso para descobrir algo tão simples.

"Ah, mas aí qualquer coisa pode ser considerada um PC! O PS4 então é um PC, lol!".

Não, meu caro. O seu PS4, ou Xone, ou Wii-U, ou seu player multimídia, ou seu GPS, ou seu leitor de e-books, ou seu celular comum, entre tantos outros, são dispositivos computacionais dedicados, com finalidades bem específicas. E categorizados, sobretudo, por essas finalidades. Um  player de MP3, por exemplo, não é muito diferente, em sua essência, do velho toca-discos. Esses dispositivos não possuem a flexibilidade necessária para serem considerados PCs, a menos que sejam destravados e subvertidos com um sistema operacional que permita que eles se tornem computadores genéricos.

É normal e esperado que os computadores pessoais se diversifiquem à medida que a tecnologia evolui, se adaptando a diferentes necessidades e fechando lacunas. Isso não é um problema ou uma exceção. É uma rotina altamente desejável. Então vamos deixar essa asneira de lado de que o "PC está morrendo", quando na verdade ele está é evoluindo, se diversificando e expandindo sua área de atuação.

O PC está "perdendo espaço"

Quando os notebooks se popularizaram, os PCs convencionais do tipo "desktop" perderam espaço porque, para muitos usuários, era vantajoso optar pela novidade. Mas é muita arrogância e egocentrismo alguém achar que, por uma determinada solução ser a melhor para ele, será assim para todo mundo. Não é, e com certeza não foi neste caso. O que ocorreu então é que um ponto de equilíbrio foi atingido e hoje as duas soluções - desktops e notebooks - convivem muito bem entre si. Cada uma no seu quadrado. Cada uma com seu público.

O advento de smartphones e tablets bagunçou a situação novamente. Estamos atravessando uma época de transição, mas um novo ponto de equilíbrio certamente será atingido. Haverá sim perdas para notebooks e desktops. Pois a verdade é que nem todo usuário precisa deles. A velhinha que usa o computador apenas para trocar receitas e infernizar a vida dos filhos no Facebook pode muito bem se virar com um tablet ou mesmo com um smartphone. O usuário que basicamente joga Monument Valley, passeia na internet e usa redes sociais, também não precisa de um trambolho pesado e desajeitado ocupando espaço no escritório. Da mesma forma que você não precisa de uma cozinha sofisticada em casa só para fazer pipoca ou miojo. Você também não precisa de um Xsara Picasso se sua família se resume a você e sua esposa. Você tampouco necessita de um jipe de aventura se tudo que precisa é levar as crianças na escola. Mas nem por isso estes produtos deixam de ter seu apelo e seu mercado.

Ninguém que precisa programar, digitar longos textos, trabalhar com planilhas, fazer design ou desenho profissionalmente, editar imagens complexas (ou som e vídeo), usar programas de controle, de processo, de gerenciamento, etc, etc, etc, etc, pode abrir mão das vantagens de um desktop ou de um notebook. Seja por capacidade de processamento, seja por recursos mais adequados para entrada massiva de dados, seja pela maior precisão e controle, seja por possuir um ecossistema mais aberto, completo e livre. Cada problema tem uma ferramenta mais adequada. Só porque você usa com sucesso um alicate para cortar as unhas não significa que ele servirá para quem precisa arrancar um prego de uma tábua.

E o PC Gaming?

E, claro, há também a questão dos games, como não poderia deixar de ser.

Quanto a isso, folgo em dizer que PC Gaming vai muito bem, obrigado. Como sempre esteve. Se a Wired aponta as quedas nas vendas dos PCs em geral (que, por sinal  podem ter várias causas externas, inclusive a espera pelo Windows 10), a Nvidia, por outro lado, reporta lucros expressivos, a maior parte deles pela venda de GPUs. As vendas destas, por sinal, aumentaram 14% ao longo do último ano. As vendas de GPUs GeForce GTX, tanto para desktops como para notebooks, cresceram nada menos do que 57% (!), em uma forte demanda pela recém lançada GTX 750. Como se pode ver, ainda que os PCs comuns tenham diminuído em quantidade, os PCs voltados para games permanecem bem populares. Não acidentalmente, a Valve anunciou há poucos dias que o Steam teve um novo recorde de usuários simultâneos: 9 milhões. E o serviço ultrapassou os 100 milhões (!!) de contas ativas.

Nenhuma delas, presumo, deve pertencer à velhinha do Facebook.

A VERDADEIRA morte do PC

Se algum dia o PC (e aqui me refiro a qualquer plataforma genérica de computação pessoal) morrer, não será pelo advento de novos formatos. Será pela troca do poder computacional do usuário pelo poder de processamento remoto de terceiros: uma empresa ou um governo. Ao usuário caberia apenas máquinas clientes leves, de pouca capacidade, com a maior parte do poder computacional e de armazenamento do lado do provedor do serviço. O crescimento de soluções "na nuvem" e de streaming aponta nessa direção. O usuário então tomará emprestado o poder computacional alheio, via de regra para finalidades específicas: editar um texto, ou jogar determinado título, ou assistir a um filme, ou escutar uma música. Estaríamos perdendo nossa liberdade de processarmos o que bem entendermos, da forma como quisermos, nos colocando nas mãos de terceiros para executar essas tarefas. Em última análise, cedendo para estes a prerrogativa de permitir o que podemos fazer ou não. Como se vê, é um poder assustador este que estamos abrindo mão - sim, pois o processo já se iniciou. E, infelizmente, não vejo as pessoas muito preocupadas com isto. O texto da Wired toca neste ponto de forma muito periférica, quase acidental, quando deveria ser o cerne da questão.

ESTE sim seria um artigo interessante.

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3 comentários

  1. Marcos A. S. Almeida19 de março de 2015 08:55

    Concordo com você , Wasner. Ao longo do tempo também tenho acompanhado essas "previsões" que nunca se concretizam. O PC, de todas essas plataformas citadas, é o mais versátil.O Desktop faz praticamente tudo o que as outras plataformas fazem e se considerarmos o Notebook , têm inclusive a portabilidade dos mesmos - com algumas limitações, claro.Essa versatilidade é, ainda, o maior atrativo do PC, seja Note ou Desk.Outra previsão que não se concretizou foi a morte dos jogos de PC, que diziam , iriam acabar principalmente por conta da pirataria. Hoje, pra nossa satisfação , esse segmento está cada vez mais forte e eu diria que um dos fatores é o preço e o outro é o Steam.Mas isso é um outro assunto.

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  2. Marcos A. S. Almeida19 de março de 2015 09:22

    Desculpe, só depois de opinar sobre esse post é que vi que você já tinha escrito sobre a "suposta" morte dos jogos de PC. Concordo com todos os pontos abordados no seu texto - http://www.planetoidex.com.br/2014/08/porque-escolhi-o-pc-gaming.html - e o tópico "O PC pertence A VOCÊ. O console, NÃO." é algo que eu ainda não tinha pensado é é verdade! Adiciono mais uma opinião: como os consoles sempre tiveram um hardware limitado e muitos de seus jogos eram "portados" para o PC (principalmente na era PS1/PS2) , fez com que a busca frequente por gráficos melhores ficasse estagnada , refletindo, no PC , em uma longevidade maior do hardware . A troca constante de hardware sempre foi apontada como uma desvantagem do PC para os consoles.

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  3. Este ponto que vc levantou é muito importante, Marco! Concordo 100% com vc. Cheguei a falar algo parecido sobre isso no trecho a seguir:

    "Ao contrário do que afirmam alguns pretensos entendidos, você não é "obrigado" a fazer upgrades em seu PC todo santo ano para jogar os títulos mais modernos de uma geração. Já se foi a época em que isso era necessário. Como os consoles atuam como "âncoras tecnológicas", todo título multiplataforma (a esmagadora maioria dos jogos AAA, por sinal) precisa ser nivelada por baixo, pelo menor denominador comum. E o menor denominador comum, atualmente, é muito modesto, já que os consoles da nova geração são baseados em tecnologias consideravelmente datadas. Mesmo sendo máquinas dedicadas, o abismo tecnológico é tamanho que, se você possui uma boa placa de vídeo, "mid-tier", ela com certeza será capaz de rodar com competência de sobra todos os títulos multiplataforma dos próximos cinco anos ou mais."

    Infelizmente, a maior parte do gamers tem preconceito ou resistência ao PC por pura ignorância e desconhecimento. Certos mitos sobre a pltaforma custam a morrer...

    Abraços!!

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