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Wasteland 2 nos Consoles? A radiação fritou o cérebro da inXile?

sexta-feira, março 06, 2015 José Guilherme Wasner Machado 7 Comentários Categoria:


Quero comentar aqui sobre o anúncio da inXile de que Wasteland 2 será portado para o Xbox One e PS4. A versão curta: considero esta uma das idéias mais estúpidas e comercialmente bizarras de todos os tempos. Um atentado contra a própria propriedade intelectual.

Versão longa: praticamente todos os "consolistas" que eu conheço pessoalmente nunca demonstraram interesse pelo tipo de jogo que Wasteland 2 é. Via de regra, eles anseiam por jogos com belos gráficos, jogabilidade simples e intuitiva, cutscenes cinematográficas e, se possível, ação frenética. Não há nada de errado com isto, ao contrário do que pregam alguns esnobes. Só que é tudo o que Wasteland 2 não é.

Não vejo nenhum dos meus amigos consolistas se esfalfando com um gamepad para controlar uma equipe que pode ter até sete membros, e onde o posicionamento tático é vital. Muitas vezes é difícil controlar o posicionamento da equipe, ou visualizar o campo de batalha, mesmo com mouse e teclado. Que 1) são os ideais para este tipo de tarefa, e 2) são os dispositivos de entrada para os quais o jogo foi idealizado. Com um gamepad, será um pesadelo. Prevejo muitos momentos de frustração para nossos queridos amigos consolistas. E nem vou entrar na questão das inúmeras opções táticas da interface.


Outro problema será ler as laudas e laudas de texto em fontes pequenas na tela de uma TV, com o cara sentado no sofá. Terão que aumentar enormemente o tamanho da fonte. O que será um problema, dada a quantidade de texto a ser lida. Os gráficos simples, pobres, com texturas lavadas, ficarão ainda mais evidentes numa TV grande. Wasteland 2 é um jogo feio. Numa enorme TV LCD/Plasma, ficará mais feio ainda. E não há polimento ou Unity 5 que conserte isso, a menos que a inXile esteja disposta a fazer um enorme investimento reformulando a parte gráfica. O que eu não acredito que acontecerá.

Vale ainda observar que Wasteland 2 é um jogo com requisitos de hardware bem modestos. É perfeitamente possível rodá-lo na maioria dos notebooks que as pessoas costumam ter em casa. O que diminui ainda mais o apelo comercial da versão console.

Fico estarrecido com esta decisão da inXile. A única explicação que encontro é que a conversão deve ser tão barata (a engine Unity 5 parece facilitar isso) que se viabiliza financeiramente, mesmo que o jogo só venda alguns milhares de cópias no console. Mas será que estes trocados compensariam o desgaste de imagem inevitável que uma conversão porca dessas faria à franquia? Desgaste que pode afetar inclusive a decisão de compra de jogadores de PC que estão indecisos ou não conhecem o jogo?

Se a inXile pretende eternizar Wasteland como uma marca de nicho, provocando rejeição perpétua em todo o resto do mercado, ela está indo pelo caminho certo. Diria mesmo que está sendo genial. Muitas empresas são assim, espertas demais para o próprio bem. A ganância em excesso costuma sair pela culatra.

Leia isso na sua TV, a três metros de distância.

Muito melhor faz a Obsidian, que garante que não irá lançar Pillars of Eternity nos consoles. Não por birra, implicância ou "pczismo", mas simplesmente por entender a natureza do jogo e do público alvo. Por valorizar o seu produto. Por não desejar diminuir a qualidade da experiência, nem o valor da marca, a "troco de padaria".

Eu entendo que talvez a inXile não tenha obtido o retorno financeiro que esperava, e esteja fazendo isso como uma última cartada, uma jogada desesperada para viabilizar comercialmente o seu produto. Não acredito muito nesta hipótese, para ser sincero. Se fosse assim, eles não estariam tão ansiosos para lançar The Bard's Tale IV. O investimento nesta outra franquia de nicho e natimorta indica que os resultados de Wasteland 2 foram bons o suficiente para justificar outra iniciativa similar.

Se a intenção da empresa é meramente expandir o público-alvo, ela deveria mirar nos tablets. Eles têm tudo a ver com o tipo de jogo que Wasteland 2 é. A interface touchscreen e a portabilidade seriam fortes argumentos de venda. Diria mesmo que vários fãs comprariam o jogo novamente, só pela portabilidade. E os gráficos feiosos ficariam razoavelmente atraentes na telinha minúscula destes dispositivos. Bastaria dar um tapa na HUD, escolher uma fonte mais adequada para uma tela menor, e partir para o abraço.

Mas, enfim, não sou eu o dono da franquia. Limitação minha não compreender os meandros destas mentes tão geniais. Ficam os meus mais sinceros votos de que a inXile tenha sucesso nessa sua tresloucada iniciativa. Afinal, quanto mais sucesso a empresa tiver, maiores as chances de vermos um Wasteland 3, 4... mas eu duvido bastante disso. Torço para estar enganado.



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7 comentários

  1. Vi por estes dias que a versão vitaminada do Pillars que está pra sair também receberá versão console.

    Sinceramente, não me importo. Dragon Age 1 também começou como um jogo só de computadores, mas depois foi voltado para consoles também (talvez porque o desenvolvimento foi tão longo que não teria como ser lucrativo e justificar todo o investimento se fosse apenas um jogo de pc). E ainda assim, a versão PC ficou intacta, com a versão console sim sofrendo mudanças, como sendo bem mais fácil, com mais danos e menos inimigos. Desde que não afete a versão PC não dou a mínima. Digo o mesmo se quiserem lançar depois uma versão downgrade para consoles da geração passada, como agora ocorre com o novo mortal kombat. Não comprometendo a integridade da versão PC, eles podem lançar até pra celular uma versão bem capada.

    A propósito, era você quem buscava apartamento? http://www.trektoday.com/content/2015/05/the-uss-enterprise-building/

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    1. Thiago, o Baldur's Gate dos consoles é outro jogo completamente diferente. Não tem NADA a ver com o jogo do PC. É um rpg de ação, com jogabilidade totalmente diversa e um subtítulo diferente. É inclusive de outra empresa. Apenas compartilha o mesmo setting da TSR.

      Sei que a versão PC não será afetada, mas discordo da lógica da decisão. Teria muito mais sentido lançar para tablets. Mas, enfim, não sou eu que decido... ;)

      Grande abraço!

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  2. O Baldur´s Gate (dois, aliás), de console de fato é outro jogo, mas um spin-of. No caso de Dragon Age, Pillars e Wasteland eles guardarão maior semelhança com o pc. Era para o Baldurs Gate 1 ter saído tanto para Dreamcast quanto para um dos playstations, mas por algum motivo isto não ocorreu.

    Deve ser um trabalho ingrato adaptar tais jogos e também de estratégia para funcionar com o controle, Os simuladores de veículos então creio beirar o impossível sem sacrificar muito, ou abrir menus dentro de menus. Mas em nome do vil metal tudo é possível.

    Nunca se vendeu tanto console quanto na geração passada, e ao que tudo indica esta geração deverá vender mais ainda e em menos tempo, especialmente com o estrondoso sucesso do PS4. Com tantas dezenas de milhões de cópias vendidas é natural que o interesse das produtoras aumente. Ainda mais de rpgs, que costumam levar anos para serem criados. Não atirarei flechas nos desenvolvedores por expandirem o mercado de modo a abranger os consoles (nem tablets, nem celulares), pois lá é onde está a grana, ainda que tendo que repartir com a criadora do aparelho em muitos dos casos.

    Quanto à falta de interesse por parte do público, pode ser motivada por mera ignorância acerca até da natureza de tais títulos. Alguns jogos outrora exclusivos de computadores fizeram transição com sucesso para consoles. Planetside e Diablo, por exemplo. Não há como haver interesse prévio por produtos de que a pessoa pode nunca sequer ter ouvido falar.

    Quando consideramos que a geração atual de PS4 e X1 (não o Wii U) tem arquitetura semelhante ao PC e um bocado de ram, conversões para eles devem ser baratas de produzir e guardarão muito mais semelhança com o original do que veremos com uma possível conversão de celular.

    Se os consoles forem eliminados da equação, e o mercado continuar exigindo que os jogos sejam multi-plataforma, o padrão "âncora" passará a ser eles, ainda mais abaixo dos consoles atuais. Konami e Sega já se renderam a eles, por exigirem jogos de produção mais modesta.

    Teoricamente tudo que é feito num rpg de pc com botão de pausa (até mesmo a seleção múltipla de iterns) é possível num console com controle. É um processo mais lento e trabalhoso, mas tem como ser implementado e o programador não precisa ser gênio.

    Por outro lado, a recíproca inversa pode ser verdadeira, especialmente quando não tem uma empresa dona da plataforma supervisionando o padrão de qualidade na versão PC (notória por ter mais bugs, além de problemas de compatibilidade). Veja Mass Efffect mesmo. A primeira versão foi brilhantemente adaptada. Gráficos notadamente melhores e mais detalhados, mini-games aprimorados, e ATALHOS de teclado.

    Agora veja as duas porcarias que foram ME2 e ME3 no PC (jogos bons em si mesmos, porém fracos em termos de conversão). Você não pode acessar o map, o journal nem o perfil para atualizar personagens sem antes entrar manualmente num menu principal e de lá seguir para eles.

    Considere que no console 360 eles deram-se ao trabalho de implementar comandos vocais (por sinal, totalmente inadequados e mais lentos de utilizar, além de arriscados de errar na pronúncia ou reconhecimento da voz). Com o dinheiro dos consoles e a supervisão da microsoft eles deram-se ao trabalho de implementar isso, ainda que pouco ou nada mudando o jogo e nem servindo de forma prática, mas num pc com teclado o descaso foi tal que não pagaram uma hora extra a um estagiário de programação para implementar os atalhos.

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  3. Não adianta ter a máquina com maiores possibilidades, se a preguiça e o comodismo, além de descaso com o público impede que o mesmo seja explorado. Do mesmo modo que a cobrança por conta da dona do aparelho, a oferta maior de mercado e expansão do público pode levar uma fabricante a empenhar-se melhor em implementar algo bem feito ainda que o controle de console não seja o mais adequado.

    Ainda que eu faça cara feia para consoles, eu hoje os tomo como o mal menor, e preferível aos portáteis e celulares.

    O dinheiro do mercado de consoles parece tão alto que até a valve tem interesse na sala-de-estar e desenvolveu o steam controller para os pcs consolizados que eles estão ajudando a empurrar.


    Ah, os Dark Alliances foram desenvolvidos pela licença D&D da Interplay, sob supervisão da mesma. Eles até queriam lançar um BG3, que seria continuação de icewind dale 1 e 2, mas por motivos econômicos e a própria crise no mercado de pcs eles cancelaram. Na época eles cancelaram um bocado de títulos, inclusive conversões de console do BG1. Eu lembro que foi até chocante quando cancelaram a versão Dreamcast, pois na época, motivado por Final Fantasy 7 e 8, a mera menção das três letrinhas RPG fazia os consoles tremerem, havendo muita demanda por jogos neste gênero.

    Pesando todos os prós e contras, eu ainda prefiro um jogo ao modelo clássico que seja multi-plataforma (e que tenha até mesmo downgrades para PS3 e 360) a ver um que se nivele pos aparelhos móveis Ou pior, um exclusivo de PC que funcione em sistema de free to play. Console pode não só ser um mal menor, como até ser um mal necessário na conjuntura atual.

    Estando minha experiência de jantar preservada intacta, outros podem explorar as vantagens de comer a mesma comida utilizando colher, ou garfo, ou pauzinhos, ou com as mãos...

    Não é impossível aos consoles acomodarem alguns jogos de pc com pequenas alterações mas preservando a experiência básica deles. Do mesmo modo que o Ocidente digeriu jogos orientais e vice-versa, e hoje muitos jogos típicos de console podem ser achados no pc. Resident Evil, Dead or Alive, Mortal Kombat, Street Fighter, Metal Gear, Final Fantasy, Ys... Mais de 100 milhões de conta na steam atraem desenvolvedores. Assim como as vendagens de consoles.

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  4. A propósito, já que você é entusiasta de rpgs para tablets:

    Você tem noção de que por causa delas, as chances de um jogo estilo infinity engine saindo com gráficos de altíssima definição são reduzidas? As versões PC de Icewind 1, BG1 e BG2 aprimoradas ficaram muito abaixo do que poderiam ter sido justamente por terem sido criadas de modo a rodarem em portáteis. Ao que parece dá até pra montar uma equipe com pessoas em diferentes plataformas. Isto sim parece ser rebaixar-se por conta de um mínimo denominador comum.

    De fato, o tamanho das versões teve que ser bem comprimido de modo que conteúdo que no PC é gratuito (pois cabe tudo junto) teve que ser vendido à parte na loja de portátil, do contrário extrapolaria os limites de espaço permitidos.

    No fim das contas, são apenas versões mais limpas de jogos de 15 anos atrás (que eu já achava feios naquela época) e não legítimos produtos re-elaborados com o que a tecnologia atual possibilita.

    Que eu saiba, nenhuma concessão em matéria de controle e manejamento de itens e talentos no Pillars foi ou será feita na versão PC por conta das contrapartes em console. Mas no caso dos D&Ds remakes da Interplay é certo que foram capados visualmente em PC por conta dos dispositivos móveis.

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    1. Thiago, muitas das coisas que vc colocou são opinião pessoal, que eu respeito, ainda que discorde. Mas gostaria de fazer algumas ressalvas, se vc não se importar:

      1) Em nenhum momento disse que é tecnicamente inviável portar um jogo deste tipo para consoles. Obviamente é possível. Apenas acho que o resultado será pobre, pelas razões explicadas ao longo do artigo acima. Claro que é possível adaptar um jogo pesado de estratégia para o gamepad. Se será agradável para o jogador, é outra história. Da mesma forma que é posssível jogar Street Fighter com mouse e teclado... se será agradável para o jogador, é outra história.

      2) Insisto: Baldur's Gate: Dark Alliance, NADA tem a ver com a série Baldur's Gate do PC, apenas usa o mesmo setting da campanha Forgotten Realms, uma propriedade intelectual da TSR. Trata-se de um RPG de ação linear, e não de estratégia semi-open-world, e sua história nada tem a ver com a saga dos filhos de Bhaal. São, para todos os efeitos, jogos completamente distintos, independentes e que NADA compartilham de jogabilidade ou história.

      3) BGEE, BG2EE e ICEE foram criadas primeiro para PC e depois adaptados para tablets, cujas versões saíram bem depois. Eles " ficaram muito abaixo do que poderiam ter sido" simplesmente porque a Beamdog pouco alterou dos jogos originais (são essencialmente a mesma coisa), por uma série de razões econômicas e de puro azar - como não ter encontrado os arquivos com as imagens originais rasterizadas de background de maior resolução - como detalho nas minhas resenhas sobre BGEE. De resto, as restrições de espaço por app do iPad já relaxaram, os tablets tem resolução até SUPERIOR ao 1080p de um PC "normal" (no ipad "retina", 2048 x 1536) e poder de processamento mais do que suficiente para dar conta das modestas demandas de jogos do gênero. Não vejo problema algum nesta seara.

      Abraços!

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