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Os treze tipos mais irritantes de jogadores de RPG

quinta-feira, julho 09, 2015 José Guilherme Wasner Machado 6 Comentários Categoria: ,

Compilo, a seguir, uma lista com alguns dos tipos mais irritantes que costumam pulular na comunidade gamer/rpgista. Se você topar com algum deles, siga meu conselho: corra, meu amigo. Corra o mais rápido que puder.


O Matemático

História? Personagens? Momentos marcantes, dramáticos, empolgantes, comoventes? Nada disso importa para o Matemático. O que o seduz é a análise minuciosa dos sistemas do jogo. Vasculhar detalhadamente as tabelas de estatísticas das diversas classes, raças e habilidades, procurando combinações matadoras não previstas pelo desenvolvedor e que maximizarão os poderes do seu personagem. Descobrir desbalanceamentos e exploits. Se aproveitar de cada brecha, vulnerabilidade e omissão. De forma que o personagem se torne muito mais poderoso do que o pretendido pelos criadores. E então - glória das glórias - desdenhar do jogo dizendo que ele é falho.

O anseio do Matemático é por um sistema de jogo invulnerável, com balanceamento absolutamente perfeito e impossível de ser quebrado. História, relacionamentos e personagens são apenas distrações nesta busca sagrada, e portanto deveriam ser eliminadas. O grande sonho do Matemático é um RPG totalmente construído no Excel. Isso sim o faria verter lágrimas de emoção.



O Esnobe

O Esnobe odeia com fervor qualquer coisa que possa ser minimamente considerada como "mainstream" ou "acessível". Quanto mais popular ou fácil/intuitivo um jogo é, maior o seu desdém pelo mesmo. Seu teste básico é: aquele amigo fã de FPS's gostou de um determinado RPG? Então o jogo deve ser evitado como a peste. Suas principais medidas de qualidade para um RPG são A) a sua obscuridade e/ou B) a espessura do seu manual e/ou C) o hermetismo da sua jogabilidade. O Esnobe pode adorar um determinado título num primeiro momento, enquanto ele é ainda bem obscuro, para no instante seguinte descartá-lo com um muxoxo, quando descobre que até os fãs de FIFA ou The Sims começaram a falar dele.

Mas não se engane: o principal prazer do Esnobe não é jogar um RPG "diferenciado". E sim tripudiar de todos que desistiram dele por ser muito difícil. Ou desprezar aqueles que tiveram a audácia de desconhecer aquela obra-prima com 10 cópias vendidas no mundo inteiro.


 O Policial

O Policial (ou "Cagador de Regras", como é conhecido por alguns) é aquele que tem uma visão muito clara "do que é um RPG", ou, pelo menos, "do que é um RPG aceitável" e faz questão de que todo mundo entenda isso. Para encontrá-lo, diga que você gostou de Mass Effect 2, ou Fallout 3, ou Skyrim, ou Dragon Age, etc, etc, etc. O Policial brotará magicamente do chão para doutrinar você do porquê aqueles jogos "não serem RPGs de verdade". Por isto, por aquilo, ou por aquilo outro. "Isto não é RPG, é um Date Sim!". "Isto não é RPG, não tem atributos!". "Isto não é RPG, não tem combate por turnos!". "Isto não é RPG, as decisões não fazem diferença!". "Isto não é RPG, você não cria seu personagem!". "Isto não é RPG, seu personagem tem voz própria!".

O Policial patrulha constantemente a Internet à caça de malfeitores que possam ter violado suas leis particulares e - audácia! - se divertindo (!) com tais jogos transgressores. Fóruns de discussão, redes sociais, blogs, seções de comentários, portais especializados, ninguém está à salvo de topar com uma blitz inesperada do Policial e ser devidamente enquadrado com todo o rigor da lei.

OS RPGistas de Bem podem dormir tranquilos com o Policial a protegê-los, incansavelmente.


O Talibânico

O Talibânico tem muito em comum com o Policial, e não raramente são confundidos. Mas enquanto o Policial gosta que existam jogos e pessoas que violem as suas convenções - afinal, sua principal diversão não é jogar, mas ditar regras - o Talibânico não admite de jeito nenhum a existência de alternativas às suas visões de mundo. O Talibânico é aquele cara que odeia lasanha, mas não basta ele ter a liberdade de não comer lasanha. Não senhor. As lasanhas tem que ser proibidas, eliminadas, proscritas, de modo que ninguém mais possa comê-las. Mesmo que ele não tenha nada com isto, mesmo que esteja do outro lado do planeta.

Um RPG que permita ser jogado da forma "correta" não é bom o suficiente para o Talibânico, caso também permita que o jogador o utilize de forma "herética" ou "impura". Exemplificando, se o jogo implementa romances (horror!) , quest marks (horror!!) ou seletores de dificuldade (pare!!), não adianta esses recursos serem completamente opcionais. Pois alguém por aí pode usufruir deles, e tal possibilidade é completamente insuportável para o virtuoso Talibânico. O Talibânico é o cara que acorda gritando à noite, suando frio, porque, em algum lugar do mundo, alguém está tendo um romance opcional com um NPC... e se divertindo muito com isto.


O Consolista

Para o Consolista, toda a história/cultura/tradição/inovação dos games é reservada ao universo dos consoles e ponto final. E isso, claro, também se aplica aos RPGs. RPG no PC? Só Diablo e World of Warcraft! Ou algum título multiplataforma, afinal existem aqueles mercenários capitalistas que querem ganhar uns trocadinhos com esta plataforma moribunda e decadente. E, vale salientar, todo mundo sabe que os RPGs surgiram nos consoles, não é verdade? E tem mais, meu amigo, duas palavrinhas para você: Final Fantasy. Final Fantasy, cara! Final Fantasy é que é RPG, o resto é resto! Final Fantasy é o pináculo dos RPGs! A Morte da Aeris, cara, a morte da Aeris, nem te conto! E você já viu a roupa irada dos personagens, hein? No PC tem isso, hein?! Tsc. Elder Scrolls e Fallout são legais também, sorte de vocês que também tem pra PC, aí vocês podem jogar algo além de Diablo e World of Warcraft!

Sim, o Consolista pode ser muito, muito irritante.



O Deslumbrado

O Deslumbrado é aquele sujeito sem qualquer tipo de distanciamento ou senso crítico. Tudo é lindo, genial, maravilhoso, seminal, e unicórnios caminham sobre a terra vertendo arco-íris pelos seus orifícios anais. O Deslumbrado é, sobretudo, um entusiasmado, um crente, um crédulo, um discípulo. Para o Deslumbrado, o merchandising de uma empresa deve ser absorvido com maravilhamento e fé. "Press releases"? Não! Tábuas sagradas! Alvíssaras! O Deslumbrado vive de olhos arregalados e boca aberta, sempre impressionado de como tudo é uma "revolução", uma "quebra de paradigmas", o futuro materializado realidade. Cada desenvolvedor é um gênio, um visionário. Cada nova firula tecnológica, algo destinado a mudar totalmente a forma como jogamos.

Uma produção pode se revelar uma tremenda decepção, mas o Deslumbrado seguirá... bem, deslumbrado, cego para todos os seus evidentes defeitos. Para o Deslumbrado, cada título foi criado por um grande amigo, muito querido, quase um irmão, e que precisa ser protegido de comentários negativos, mesmo que estes ocorram num fórum obscuro do Casaquistão. É preciso ter boa vontade, compreensão e amor no coração. Os críticos? Haters, todos eles. Um turma invejosa, recalcada e de mal com a vida, por não ter a capacidade de criar uma obra-prima daquelas.


O Fanboy

O Fanboy é uma variante do Deslumbrado, mas que dedica seu deslumbramento e ausência de senso crítico exclusivamente a uma determinada franquia, marca, empresa, etc. É importante ressaltar aqui esta questão da exclusividade. O Fanboy pode ser (e provavelmente será) extremamente crítico e ácido com qualquer coisa que não seja o seu objeto de adoração. Ainda mais se essa outra coisa for percebida por ele como uma espécie de "concorrente". Uma crítica ferina a um determinado defeito de um jogo pode ser esquecida, ou mesmo transformada em elogio, se o tal defeito ocorrer em sua franquia de estimação.

O Fanboy é aquele cara que invade as seções de comentários de uma resenha para se queixar do tratamento "injusto" ou "excessivamente duro" ao seu jogo do coração (o resenhista só deu nota 9 em 10, que audácia!), enquanto apóia entusiasticamente críticas similares a um jogo "rival" ("claramente sobrevalorizado, hype pura, só não vê quem não quer"). É comum o Fanboy insinuar que o resenhista em questão seja um "ista" da franquia/marca/empresa "concorrente", e que tudo faz parte de uma grande conspiração para desacreditar sua franquia/marca/empresa predileta.


O Conservador

O Conservador vive da nostalgia e de suas lembranças perfeitas. Para o Conservador, o passado é cor-de-rosa e tudo nele é lindo e irretocável. Se um RPG foi criado a menos do que quinze anos, ele não presta. Por melhor que seja. Se foi feito antes, ele é excelente. Por pior que seja. Seu modelo ideal de jogo é Tunnels and Trolls. O que ocorreu daí para frente foi uma queda constante em direção à mediocridade, em uma conspurcação crescente da pureza de um verdadeiro RPG.

O Conservador mede a qualidade de um título através de uma complexa equação, cujos valores vão se acentuando à medida que:

- A respectiva data de lançamento se aprofunda no passado.

- A resolução diminui e os pixels crescem de tamanho. Fatality se o jogo for ASCII.

- O espaço de instalação em disco encolhe. Bônus especial se couber em um disquete de 8".

- Recursos sonoros inexistem ou se resumem a pings, bips e zumbidos. Se o jogo possui diálogos falados, seu prestígio cai pela metade. Se o personagem do jogador possui voz, o jogo é desclassificado.

O Conservador vive em profunda angústia, vendo seu mundinho confortável e familiar desaparecer à medida que os anos se passam. Seu sonho é reverter a roda do tempo. Por conta disso, o Conservador sobrevive à base de kickstarters e desenvolvedoras indie de baixo orçamento.


O AAA Freak

O AAA Freak é aquele jogador que só se importa com um título se ele tiver um orçamento estratosférico, valores de produção hollywoodianos e merchandising de primeira. O típico jogo que o seduz é aquele que domina um estande inteiro da E3 e pertence a alguma marca famosa. Bônus se ele tiver algum banner gigantesco na parede de algum prédio importante. Bônus duplo se a produção escalar algum famoso ator de cinema para dublar um personagem, mesmo que este personagem só apareça por uns 10 minutos. O jogo pode ser péssimo, mas se for lindo, cinematográfico, usar a última tecnologia e esfregar seus valores de produção na cara de todo mundo, será defendido com unhas e dentes pelo nosso amigo. O AAA Freak analisa cuidadosamente cada trailer e cada screenshot de um lançamento para detectar a presença de economias, texturas ruins ou repetidas, expressões faciais e animações menos do que perfeitas e outros tratamentos de segunda classe. Ele pode morar num puxadinho na casa dos pais, mas nos mundo dos games só se contenta com as Ferraris.


O Masoquista

Quanto mais difícil, demorado e trabalhoso for cumprir uma tarefa rotineira em um RPG, melhor para o Masoquista. Este jogador tem uma profunda fobia e desprezo por quest marks, saves, locais de fast travel, automap, tips, tutoriais in game, seletores de dificuldade on the fly e outras amenidades dos jogos modernos.

Alguns prazeres típicos do Masoquista:

- Vasculhar por dias um pedaço do cenário em busca de um objeto minúsculo que lhe permita avançar na história.

- Atravessar um mapa gigantesco por horas, a pé, andando (correr não seria realista), para alcançar o destino. E repetir o mesmo trajeto, da mesma forma, tantas vezes quantas forem necessárias. Afinal, se Frodo não contava com recurso de fast travel, tampouco deve tê-lo o jogador.

- Resolver puzzles e enigmas lógicos que desafiariam HAL 9000.

- Ser lançado de volta ao início da fase a cada morte de um inimigo, mesmo que este seja o último diante da porta de saída. Para daí ter que atravessar tudo de novo. E de novo. E de novo. E de novo. Quanto mais, melhor. Bônus se os inimigos mortos forem ressuscitados a cada nova travessia. Bônus duplo se os itens duramente conquistados forem eliminados a cada fracasso. Orgasmos se o RPG implementar save único e permadeath, obrigando o jogador a começar toda a história do zero a cada morte.

Por alguma razão ainda não inteiramente compreendida, Masoquistas não parecem ter relacionamentos duradouros ou uma vida social ativa.


O Mimadinho

O Mimadinho é o oposto do Masoquista. Ele desanima diante da menor das dificuldades, e abandona definitivamente um jogo depois de algumas poucas frustrações. "Poxa, mas como assim eu dei duas espadadas em um inimigo e ele não morreu?! Foram DUAS espadadas! E eu morri! Morri, você acredita nisso?! E logo no início! Não deveria ser fácil no início?!".

E, como assim, o caminho até o objetivo não está marcado com um tapete vermelho, setas luminosas em neon e rodeado por uma multidão de NPCs aplaudindo o jogador e gritando palavras de incentivo e carinho? Como assim?!

O Mimadinho tampouco gosta de finais ou alternativas em que ele é obrigado a perder alguma coisa. Ele não quer optar por salvar A ou B. Ele quer salvar A e B. E ficar com a garota C e D e E. Ele também quer que todos os personagens da sua equipe convivam bem, em harmonia, sem conflitos de valores ou personalidade. E, sobretudo, que eles jamais discordem ou desgostem do personagem dele.

O Mimadinho jamais abre um manual. De fato, se existir um manual, e ele tiver mais do que duas páginas, o Mimadinho provavelmente desistirá do jogo. O máximo que o Mimadinho tolera é um tutorial dentro do RPG. Mas se ele fracassar no tutorial, também desistirá.

O desejo do Mimadinho é bem claro: ele quer ser o fodão. O maioral. Chutar bundas. Ser amado por todos. Desde o início. E sem qualquer mínimo esforço ou frustração.

Na vida real o típico Mimadinho ainda mora com os pais, que lavam suas cuequinhas, passam sua roupa, arrumam sua caminha e fazem sempre sua comidinha predileta. Mesmo ele já tendo passado dos quarenta anos de idade.


O Profissional

É fácil reconhecer o Profissional. Ele jamais sorri, está sempre com os lábios curvados para baixo e uma expressão analítica no rosto. Para ele, RPGs são coisa séria, que devem ser encarados com responsabilidade e dever. O Profissional é uma espécie de Yoda, mas sem o senso de humor daquele personagem. "Diversão... pff! Aventuras... pff!! Por estas coisas um RPGista não anseia! Você... inconsequente... é!", repreende o Profissional, colocando no devido lugar os irresponsáveis infantiloides que ousaram dizer que um bom RPG é um RPG "divertido". Não, filho, o bom RPG é aquele que cumpre suas obrigações, e isto deve ser analisado com rigor, justiça, imparcialidade, desapego, maturidade, distanciamento emocional e, sobretudo, seriedade. Um RPG ruim pode levar o mundo a uma catástrofe, e vidas inocentes serão perdidas. Quer ser o responsável por isso? Você é um homem agora, então aja como tal!


O Blogueiro de RPGs

É o pior de todos. Odeio este cara. Nem vou falar nada.

PS: pessoal, a coisa anda feia pro meu lado aqui, por isso perdoem as atualizações espaçadas. Infelizmente esta situação vai perdurar por algum tempo mais.

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6 comentários

  1. Eu sou multiclasse: Policial\Conservador\Masoquista

    Mas minha tendência é boa e por isso raramente incomodo outros RPGistas com minha chatice. KK

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    1. Acho que todos nós temos um pouco de cada um desses tipos! Eu certamente tenho...

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  2. Muito bom! Dei boas risadas por aqui!!

    Eu já me deparei com cada um desses tipos pelos fóruns da vida.

    Duas ótimas maneiras de provocar a presença deles em um fórum:

    1ª - Cometa a heresia de dizer que não gostou de Morrowind mas que adorou Oblivion e Skyrim.

    2ª - Cometa o pecado mortal de dizer que não achou os Fallouts 1 e 2 tão divertidos assim mas que se viciou nos Fallouts 3 e New Vegas.

    Nos dois casos é bom que esteja preparado para receber "porradas" de todos os lados, e em quase todas as línguas faladas no mundo. Especialmente dos tipos Policial, Conservador e Masoquista. Se fosse possível, eles o enforcariam e depois queimariam o seu corpo em praça pública por tamanha heresia. :)

    Só faltou nessa lista o graphics whore. Tem muita gente (eu conheço vários) que quando vc começa a falar bem de um jogo só quer saber de uma única coisa, ignorando totalmente todos os outros aspectos do jogo: "Os gráficos são bonitos?"

    Pessoalmente eu acho que me enquadro mais no tipo mimadinho mas nada muito exagerado. Já fui pior. :)

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  3. Luiz Antonio, eu acho que os graphic whore se encaixam no tipo AAA Freak. Quanto ao texto, muito bom Wasner. Impossível ler e não se pegar se policiando pra ver se seu caso se enquadra em um dos exemplos. Felizmente, acho que não me encaixo necessariamente em nenhum. Quer dizer, como eu só jogo em consoles e só falo de jogos de console no meu blog, poderia ser o Consolista. Mas eu estou pouco cagando pra Final Fantasy e jogo apenas em consoles mais por tradição do que pra ignorar o resto do mundo rsrsrsrs. Seu texto me fez relembrar daquela discussão que aconteceu na época do lançamento do Skyrim, no blog Retina Desgastada: enquanto uns ou outros se matavam para enquadrar o jogo em um estilo ou outro, eu dizia: "dá licença que eu vou matar dragões de gelo gigantescos ao som de uma trilha retumbante". rsrsrsrsrsrs. Resultado: um dos melhores RPGs de mundo aberto que eu já joguei na vida.

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